Alimentar não é apenas nutrir, envolve cultura, crenças, contexto social, prazer, afeto, relacionamento.

O apetite das crianças é variável e depende da idade, da condição nutricional, do estado de saúde, dos picos de crescimento, assim como do ambiente familiar, do comportamento dos pais e dos cuidadores. Conhecer as peculiaridades do comportamento alimentar em cada fase de crescimento e desenvolvimento ajuda os pais a lidarem com a tarefa, nem sempre fácil, de alimentar e ensinar hábitos saudáveis aos seus filhos.

Por volta do segundo ano de vida, ocorre uma redução do apetite e nesta fase é comum as crianças resistirem a experimentar novos alimentos, como os vegetais, por exemplo. E, habitualmente, os cuidadores deixam de oferecer o alimento recusado após duas ou três tentativas. Estudos comprovam que são necessárias oito a dez exposições do mesmo alimento, ainda que em pequenas quantidades e com apresentações variadas, como palitos ou figuras, para que a criança conheça o sabor e estabeleça o padrão de aceitação deste alimento.

Crianças pequenas consomem apenas o suficiente para se sentirem saciadas e isso deve ser respeitado. A distração pode atrapalhar a autorregulação do apetite e interferir neste aprendizado, por isso, durante a refeição deve-se evitar televisão, tabletes e celulares, além de não insistir e forçar para que a criança coma mais (seja com aviãozinho, chantagens, castigos etc.).

As crianças de 3 a 6 anos têm o apetite imprevisível, com períodos de desinteresse pela comida. É preciso que se estabeleça um tempo definido, em torno de 15 a 20 minutos para cada refeição e evitar substituí-la por lanches, barganhar com a criança, oferecer recompensas. A rotina ajuda o organismo a estabelecer um ritmo adequado, com períodos já esperados de fome (sendo mais fácil a aceitação e o interesse pelo alimento).

Crianças de 7 a 10 anos começam a formar laços sociais com adultos e outros indivíduos da mesma idade e estabelecem novos hábitos. É um período importante no qual conceitos sobre educação nutricional podem, com sucesso, ser introduzidos tanto pela família quanto pela escola.

Há muitas formas de fazer as crianças se interessarem pelos alimentos, compreendendo cada fase de desenvolvimento, suas preferências e seu ritmo.

Conhecer os alimentos, oferecê-los em apresentações diferentes, deixar que as crianças participem da compra e dos preparos, tudo isso faz parte do processo de educação nutricional. As crianças podem ser levadas a feiras e mercados para que conheçam os alimentos, participem das escolhas, ajudem no preparo da refeição, respeitando sempre sua idade e habilidade.

Preferências individuais podem ser exploradas pelos pais e cuidadores. As crianças podem gostar de alimentos cozidos, crus, purês, mais ou menos temperados, adocicados, ensopados, etc. E o planejamento alimentar durante a semana permite a programação de uma alimentação mais saudável, com maior tempo para preparo, evitando que se recorra a alimentos prontos e ultraprocessados.

Para construir padrões alimentares saudáveis é fundamental que pais e cuidadores deem o exemplo. Os hábitos alimentares da família são observados pela criança e depois imitados, influenciando seu comportamento alimentar até a idade adulta.

 

*Lilian Licurgo e Mônica Moretzsohn são pediatras e membros da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ).