A prevenção e o tratamento da obesidade infantil alcançam melhores resultados quando envolvem toda a família e uma equipe multidisciplinar. Há 15 anos, o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) inaugurou o programa Terapia da Obesidade Infantil (TOI), que atende pelo SUS crianças e adolescentes. O pediatra e nutrólogo Sandro Trindade Benites, coordenador do TOI, conversou com o portal Obesidade Infantil Não sobre sua experiência no atendimento a esses pacientes. Confira:

 OIN – A quem se destina o programa?

 SANDRO TRINDADE BENITES – Há 15 anos a obesidade infantil ainda não era uma epidemia global, mas já era motivo de preocupação. O programa TOI é destinado a pacientes do SUS que moram na capital Campo Grande e nas outras cidades do Mato Grosso do Sul. Eles são encaminhados por profissionais de saúde, como pediatras, nutricionistas e psicólogos. Também atendemos pacientes com convênios. No TOI, as crianças e os adolescentes e respectivas famílias são acompanhados em grupo por uma equipe multidisciplinar formada por pediatra, endócrino pediatra, psicólogo, nutricionista e professor de educação física. Acreditamos que assistência integrada é a melhor estratégia no tratamento da obesidade infantil. Atendemos cerca de 40 famílias por mês. Desde o início do projeto, já atendemos a sete mil famílias, sem contar as palestras que fazemos em escolas, faculdades e empresas privadas.

 OIN – Quais as estratégias usadas no TOI?

 SANDRO – O principal propósito do programa é desenvolver uma reeducação dos hábitos dos pacientes, tanto no aspecto alimentar quanto de atividades físicas e comportamentais, frente ao problema da obesidade. Buscamos a otimização de tempo e de resultados. Em uma hora, a nossa equipe multidisciplinar assiste dez, 20 famílias, e promovemos a troca de informações entre elas. No começo, atendemos cada paciente e sua respectiva família toda semana; depois mensalmente; trimestral; semestral. E as portas do TOI estão abertas aos sábados para os pacientes e ex-pacientes. E vários retornam, contam como lidaram com o problema, trocam experiências com outros. A gente acompanha tudo isso.

 OIN – A prevenção da obesidade infantil começa ainda na gravidez?

 SANDRO – Sim. O obstetra deve avaliar não apenas o excesso de peso da gestante, mas o seu pouco peso. Há casos em que a mulher fica tão preocupada em não engordar na gravidez que o bebê nasce com baixo peso. Esse é um dos fatores que favorece a obesidade na primeira infância. O ideal é o equilíbrio: nem muito, nem pouco peso durante a gestação.

OIN – A amamentação no seio ajuda a prevenir a obesidade infantil? 

SANDRO – Para os bebês, o leite materno é o melhor alimento, inclusive na prevenção da obesidade. Porém, em excesso, como tudo na vida, também é prejudicial. Vejo bebês de três meses ou menos com nove, dez quilos; o peso de uma criança de um ano. Aí a mãe diz: “Doutor, o meu bebê está só no peito”. Às vezes, a mãe não aguenta ver o bebê chorar um pouquinho e oferece logo o seio. Nem sabe se ele está com fome. Então, lembro que bebês choram por diferentes motivos; porque sujou a fralda, ou porque está irritado, com calor, com frio. O ganho de peso adequado na gravidez, o aleitamento de forma correta e, principalmente, a transição nutricional bem realizada do leite materno para o alimento sólido são medidas importantes na prevenção da obesidade infantil. Outra coisa que os pais devem entender: depois dos 2 anos de idade há desaceleração na velocidade do ganho de peso em relação à altura. E a criança vai ganhar um quilo por ano, em média. Mas a maior alegria da família é quando o bebê nasce com três quilos e no mês seguinte já está com quatro, depois cinco. Se isso não acontece, os pais entram em desespero. Criança a partir de 2 anos come pouco. Na angústia de ver o filho comendo pouco, os pais oferecem o que ele quer, quase sempre besteiras que engordam. Portanto, a prevenção da obesidade infantil também depende de os pais se conscientizarem, de se informarem com o pediatra a respeito da alimentação da criança.

 OIN – Por que a maioria dos pais reclama que o filho não come?

SANDRO – No nosso inconsciente, criança saudável é a gordinha. Muitos pais têm dificuldade em perceber o ganho de peso em excesso na criança. Outros acreditam que a criança vai emagrecer com o crescimento. Toda criança de 2 a 12 anos que não pareça magra tem no mínimo sobrepeso. O que significa isso? Não ter bochecha ou ter pouca bochecha, as costelinhas e os gominhos da coluna têm que ser visíveis. A maioria dos pais nos consultórios de pediatria chega reclamando que o filho não come nada.

OIN – Qual é o papel dos pais na luta contra a obesidade infantil?

SNDRO – Os pais têm um papel importante na prevenção e no tratamento da obesidade. Eles devem dar o exemplo; comer de forma saudável; praticar atividade física regularmente; ter bons hábitos; e aprender a dizer não à criança. Não podem ceder e oferecer o que a criança quer. Quem ama, tem que estar mais preocupado com a saúde dos filhos do que com os próprios sentimentos, como, por exemplo, se sentir culpado por não liberar a guloseima, quando não pode fazer isso. A sua responsabilidade de pai e mãe tem que ser maior que os seus sentimentos. Num mundo rico em oferta de alimentos industrializados, melhor passar longe desses produtos. A criança sempre vai atrás do que é mais gostoso. Se ela abre a geladeira e tem lasanha quatro queijos e frutas, certamente ficará com a primeira. A gente muda o hábito alimentar nas compras. Não faltará oportunidade para a criança comer besteira. Não precisa tê-las em casa. As pessoas me perguntam muito o que devem comer para se manter saudáveis, no peso adequado. Primeiro, elas precisam saber o que não devem comer ou beber. Por exemplo, não beber refrigerantes e sucos de frutas (prefira a fruta, água), não comer biscoitos, bolos embalados e outros produtos industrializados, gorduras, frituras.

OIN – E em relação à atividade física num ambiente de violência urbana?

SANDRO – Com a insegurança nas cidades, a saída é pegar a criança e sair com ela para se movimentar, de preferência para atividades lúdicas, brincadeiras, pedalar, jogar bola; mais que matricular numa escolinha. A melhor atividade física para a criança é aquela que ela gosta de praticar. Tem que diminuir o tempo dela e de sua família em frente ao celular, ao computador, à TV. E se a criança não gosta de fazer qualquer exercício? Então, terá que ajudar em casa, limpar, lavar uma louça, passar pano, levar o lixo para fora, arrumar o próprio quarto.

 Mais informações: O atendimento no programa Terapia da Obesidade Infantil (TOI) é gratuito e realizado aos sábados (manhã e/ou tarde), no ambulatório do HRMS, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para agendar uma consulta, a família do paciente deve ligar para o telefone 67-3378-2939 (2ª, 4ª e 6ª no período matutino). É necessário que o paciente apresente um encaminhamento, feito por um profissional da área de saúde.