O preconceito com pessoas acima do peso é grande em todo o mundo, inclusive no Brasil. Segundo a pesquisa SKOL Diálogos, realizada pelo IBOPE Inteligência, a gordofobia faz parte da rotina de 92% dos brasileiros. Do total de entrevistados, 10% dizem ser gordofóbicos e 8% admitem ter preconceito estético com outros aspectos da aparência física das pessoas. É evidente que o excesso de peso é fator de risco para o desenvolvimento de graves problemas de saúde, como doenças cardiovasculares e câncer, mas pesquisadores afirmam que a forma como se fala do peso de um indivíduo é algo que precisa mudar, porque a discriminação agrava ainda mais o problema.

Ainda de acordo com o levantamento, 89% já ouviram alguém pronunciar a frase: “Ele(a) é bonito(a), mas é gordinho(a)”. A expressão reforça o preconceito ao usar a conjunção adversativa “mas”, indicando que o adjetivo bonito(a) não combina com ser gordo ou gorda. O termo gordice também é associado a algo negativo. Na pesquisa SKOL Diálogos, 62% dos participantes relatam que já escutaram a frase: “Gordo só faz gordice”.

“A sociedade enxergar o fato de alguém ser gordo como uma coisa negativa é algo que mata mais do que o câncer que você pode ter, talvez, devido a algum fator que possivelmente tenha ligação com o fato de você pesar mais do que certo nível”, adverte a premiada comediante dinamarquesa Sofie Hagen, em uma série de posts no Twitter, ao criticar uma campanha da ONG Cancer Research, que alerta para o fato de a obesidade ser hoje a segunda maior causa de câncer considerada “prevenível”.

Em entrevista ao portal britânico BBC, o médico Stuart Flint, pesquisador de saúde pública e obesidade na Universidade Beckett, em Leeds, no Reino Unido, afirma que “é muito prejudicial a forma como pessoas acima do peso são diariamente discriminadas e estereotipadas na mídia, na escola, no local de trabalho – e até por profissionais de saúde. É o comportamento body shaming, que pode ser traduzido como apontar para o corpo de uma pessoa para envergonhá-la”.

Para Flint, expor uma pessoa por estar acima do peso não ajuda a emagrecer e pode piorar a vida dela.

“O estigma faz com que seja menos provável que pessoas acima do peso se tornem mais saudáveis e aumenta a chance de elas terem problemas de saúde mental e física”, esclarece à BBC. E acrescenta: “Acredita-se que as pessoas conseguiriam reduzir seu peso muito rápido, mas claramente não é o caso. Em geral, é uma condição crônica que vai se estabelecendo ao longo de muitos anos”.

Nick Finer, professor da University College de Londres, concorda com Flint e revela que muitas pessoas se acham no direito de “culpar as pessoas por estarem acima do peso, mais ignoram o papel do ambiente em que vivemos e de outros fatores que podem afetar a massa corporal”.

“Se alguém cai do barco e se afoga por não conseguir nadar, ninguém diz: ‘É sua culpa, você deveria ter segurado a respiração’. Essa pessoa teve a má sorte de estar em um ambiente em que é muito fácil se afogar. E hoje vivemos em um ambiente em que é muito fácil engordar”, argumenta à BBC.

Flint enfatiza que não se trata de normalizar a obesidade ou qualquer que seja o peso da pessoa. “É uma questão de tentar reduzir os problemas de saúde física e mental causados por tratamento discriminatório e críticas que fazem as pessoas se envergonharem de seus corpos", finaliza. Segundo especialistas, a obesidade precisa ser reconhecida como uma doença com consequentes problemas, se não identificada. Mas se deve ter o cuidado de identificar a situação e não causar constrangimentos a quem está com o peso elevado.

Na opinião de Tam Fry, porta-voz do Fórum Nacional de Obesidade – instituição britânica que faz campanha para esclarecer sobre os perigos da obesidade – o body shaming é muito prejudicial, mas assegura à BBC que “é importante que médicos possam se sentir à vontade para dizer para algumas pessoas que elas estão acima do peso”.

“Se a pessoa quer continuar acima do peso e está feliz com isso, que seja, mas é algo que precisa ser dito. O body shaming é um desastre, mas é algo bem diferente de ouvir, de forma sensível e num momento adequado, que você está obeso e que isso pode acarretar certos problemas”.

Ele também critica a campanha da Cancer Research, pois ela passa a ideia de que “as pessoas são individualmente culpadas pela obesidade e que ela é algo facilmente controlável”.

Também em entrevista à BBC, a psicóloga Iolete da Silva, professora associada da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), admite que a gordofobia causa constrangimento e dificuldade de socialização. “As pessoas se sentem inadequadas, como se houvesse algo errado com elas. É como se elas não fossem boas o suficiente para estar com os outros e para receber afeto”, conta. Ela detalha que a psicologia pode ter papel fundamental para auxiliar quem enfrenta tais situações. “A gente tenta mostrar que a pessoa que exprime esse preconceito é quem está errada e não quem é o alvo.”

O interesse pelo tema tem aumentado na internet. Com base no Google, as buscas pela palavra “gordofobia” cresceram 57% de janeiro a setembro de 2017. No ano passado, a modelo plus size Fluvia Lacerda lançou o livro “Gorda não é palavrão”, quase uma biografia, na qual ela tenta ajudar mais mulheres na luta contra a gordofobia.

“É fundamental que as pessoas que passam por situações assim possam expressar seus sofrimentos, para que possam ser acolhidas o quanto antes. Muitas vezes, elas escondem esse sentimento e isso é ainda mais prejudicial”, conclui Iolete.

Para mais informações, assista ao filme da SKOL da sua campanha de verão com a gordofobia como tema. Disponível em:

<https://youtu.be/r9948JeNKjY>.