Situações de estresse diário em família podem contribuir para o ganho de peso entre crianças e adolescentes, afirmam pesquisadores americanos da Universidade de Houston. Coordenador do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, médico do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia e professor do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Ipub/UFRJ, o psiquiatra José Carlos Appolinário dá algumas orientações sobre esse tema. Segundo ele, na maior parte dos casos, com um pouco de atenção e sensibilidade, os próprios pais e responsáveis são capazes de lidar com os problemas. 

  • Entenda o estresse: De modo geral, o estresse pode ser definido como um sentimento de nervosismo e irritação sem uma razão aparente para isso. São reações diante de experiências de ajustamento em relação à vida. Quando uma criança ou adolescente é exposto a uma situação de estresse, pode apresentar uma tendência a comer mais. A compensação com a comida ocorre tanto de maneira contínua quanto de forma mais pontual, com surtos de comilança. Esse comportamento pode levar a um círculo vicioso em que o ganho de peso é mais um fator de estresse.

  • Esteja alerta e disponível: Os responsáveis devem estar sempre atentos a sinais dados por crianças e adolescentes, como, por exemplo, os hábitos alimentares e a questão do peso. É preciso também ter sensibilidade para tentar entender por que o filho passa a comer mais. Que situações podem estar estressando a criança? Ela mudou de escola? Começou um novo tipo de atividade? Recebeu uma repreensão? Além das situações descritas no estudo americano, há outras menos dramáticas e até mais frequentes que podem gerar um estresse com o qual as crianças não saibam lidar. Cabe aos responsáveis ser capazes de perceber o problema no início, antes que um quadro de obesidade se instale.

  • Observe a qualidade da comida: É preciso prestar atenção à qualidade da comida da criança. Pode ser que ela não esteja comendo em quantidades exageradas, mas apresente uma alteração no padrão alimentar, passando a aceitar apenas produtos altamente palatáveis, como doces, guloseimas e frituras. Estudos apontam que alguns alimentos ricos em carboidratos – o chocolate, por exemplo – têm capacidade de atuar no humor, podendo acalmar. Uma recomendação importante é verificar o que está à disposição da criança na despensa e na geladeira. Se houver frutas e vegetais variados, a chance de a criança engordar, mesmo que coma mais, é menor.

  • Converse com seu filho: Quando uma situação de tensão envolvendo a família ou a criança ocorrer, é preciso tentar conversar com as crianças e os adolescentes sobre o assunto. De uma forma tranquila, procure tirar o foco da comida e entender o sentimento deles no momento. Aproxime-se e ouça seu filho. Leve em conta que a criança dificilmente falará de forma direta e objetiva. Ela pode usar sentidos figurados (“Tem um buraco no meu coração.”) ou exemplos mais concretos (“Não estou conseguindo dormir.”; “Está difícil acordar para ir à escola.”) para relatar um incômodo.

  • Procure a escola: Entre em contato com a escola para conversar. Professores podem ter notado alguma alteração no comportamento. Alguns estão mais preparados para lidar com situações desse tipo, outros não. Procure se informar a respeito do relacionamento de seu filho com os colegas e se pode estar sofrendo bullying.

  • Mantenha a rotina dos filhos: Situações como doença na família e dificuldade conjugal podem acarretar uma mudança na rotina da casa, incluindo o momento das refeições. No caso das separações, os cônjuges costumam evitar esses horários porque não querem estar juntos e passam a optar por lanches e fast-food. Evite que isso aconteça, preservando a rotina alimentar dos filhos.  

  • Avalie a agenda das crianças: Reveja o padrão de atividades semanais da criança. Será que seu filho não está sobrecarregado com cursos em que se sente muito cobrado? Avalie também o tempo gasto no deslocamento. O tempo perdido no trânsito poderia ser gasto com brincadeiras ou simples ócio. Caso sua família esteja passando por um momento delicado, considere a possibilidade de interromper temporariamente as atividades mais competitivas ou substituí-las por outras que propiciem o gasto calórico de modo lúdico, como trilhas e caminhadas.  Oficinas de leitura e aulas de teatro também devem ser consideradas porque ajudam a criança a aprender a se expressar.

  • Se precisar, procure ajuda: Se essas medidas não forem suficientes, busque o acompanhamento de um profissional da área da saúde mental (psiquiatra ou psicólogo). Dependendo do caso, talvez seja interessante um suporte para a família como um todo.