O estímulo à prática de atividades físicas e a redução no gasto de tempo com hábitos sedentários na rotina das crianças e adolescentes, inquestionavelmente, figuram como questões proeminentes de saúde pública no combate à obesidade infantil. Variáveis ambientais, fatores socioeconômicos e demográficos atuam diretamente na observação dos níveis de atividade física de uma comunidade. Neste sentido, a distribuição espacial e a estrutura física de uma cidade refletem um maior ou menor engajamento a comportamentos mais ativos.

Em áreas urbanas, por exemplo, a presença de elementos como calçadas pavimentadas e faixas de pedestres, iluminação pública, interconectividade de rotas e ciclovias são elencados como encorajadores à maior prática de atividade física. Ao passo que a desencorajam: o aumento de vias de trânsito de alta velocidade, a dependência do transporte automotivo, o número reduzido de praças, parques, quadras esportivas, academias ao ar livre e playgrounds. Adicionalmente, estão nesta equação questões sociais, sobretudo, relacionadas à insegurança e à violência urbana.

O impacto da violência não fica restrito somente à redução dos espaços públicos para as – “antigas” – tradicionais brincadeiras de rua, porém a preocupação constante e a sensação de insegurança repercutem negativamente em relação à saúde mental, estando associada ao maior risco de desenvolvimento de transtornos de ordem psicológica. Um estudo, que avaliou a percepção dos pais sobre a segurança em áreas urbanas e rurais, demonstrou que crianças que viviam em áreas consideradas menos seguras apresentaram risco de excesso de peso 4,4 vezes maior em comparação àquelas que residiam em vizinhanças consideradas mais seguras por seus cuidadores.

Concomitantemente, os avanços tecnológicos somados ao crescimento econômico, que permitiu o acesso de mais famílias não somente à televisão, mas se estendendo ao uso do computador, videogames e gadgets, como smartphones e tablets, fez crescer a parcela de horas do dia gastas como “tempo de tela”. Além de expor à publicidade direcionada a alimentos ultraprocessados, de elevada densidade calórica e baixo valor nutricional, alguns estudos demonstram que o tempo gasto assistindo à televisão está correlacionado positivamente ao aumento do índice de massa corporal (IMC) em crianças e adultos. Estima-se que cada 1 hora gasta em frente às telas por dia aumenta em 6% o risco de doenças cardíacas fatais e não fatais, independentemente do nível de atividade física.

Diante deste cenário, proporcionar espaços seguros em cidades  é fundamental para o engajamento em práticas recreativas e esportivas à população pediátrica. Neste aspecto, esforços intersetoriais direcionados às políticas públicas de saúde, segurança e planejamento urbano que visem um estilo de vida mais ativo são cardinais como medidas de promoção da saúde e prevenção do excesso de peso.

 

Clarissa Fujiwara é nutricionista e mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), Coordenadora de Nutrição da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP e membro do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).

 

Caso queira obter mais informações sobre o assunto, acompanhe as orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre a prática e a promoção da atividade física na infância e na adolescência no manual disponíveis no link: <http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/19890d-MO-Promo_AtivFisica_na_Inf_e_Adoles.pdf>.