Profª. Tania Zagury (*)

Os últimos quarenta anos parecem ter sido os que mais mudanças trouxeram para a família. Tanto que os pais se perguntam: qual é, na atualidade, o mais importante objetivo da educação? O que é ser bom pai hoje? E o que é um filho legal? Não faz muito tempo, ser “um bom menino” significava como dizia o palhaço Carequinha, “não fazer pipi na cama nem fazer má criação”, caprichar no trabalho de casa, arrumar o quarto, respeitar os mais velhos: tarefas razoavelmente fáceis de aprender. Afinal, valores como honestidade e integridade não estavam em discussão. Hoje, significa não apenas saber o que é certo ou errado, mas também conseguir se opor a atitudes que contrariam o que se vê na sociedade - o que não é fácil para adultos nem para crianças.

Opor-se ao grupo e fazer escolhas adequadas demandam forte grau de segurança. Significam que nossos filhos têm que estar certos de que solidariedade, justiça e honestidade não estão “fora de moda”.  Precisam acreditar que mesmo quando parte dos homens não respeita esses princípios, não há a mínima condição de vivermos seguros sem eles.  Como convencê-los, no entanto, se as mídias; as atitudes de muitos adultos; certos programas de tevê; e mesmo algumas músicas, os bombardeiam com mensagens antiéticas?   

Criar adultos dignos – tarefa prioritária da família - depende basicamente de duas coisas: da maneira pela qual nós, pais, vivemos o dia a dia, e da confiança que temos nos valores que guiam nossas ações. É necessário não só sermos íntegros, mas também não duvidarmos da força dos nossos princípios. Quando crianças e jovens percebem nos seus mais fortes modelos (os pais!) segurança inabalável na retidão, na cooperação, na honra – independente do que estejam fazendo os vizinhos, parentes e amigos – eles muito provavelmente também acreditarão. Se, ao contrário, já que há tanta corrupção e impunidade, os próprios pais começam a lassear seus conceitos ou a repetir diariamente “que o Brasil não tem jeito”, em que irão seus filhos acreditar?

O perigo maior para os jovens não são as drogas: é não crer no futuro e na sociedade. A falta de esperança, essa sim, é que pode levar à depressão, ao individualismo, ao consumismo exacerbado, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Já a convicção num caminho produtivo a ser trilhado faz com que eles progridam, estudem e realizem. Para ter essa confiança, porém, é preciso que convivam com pessoas que não apenas vivam de acordo com esse modelo, mas também que não se deixem abalar pelas notícias negativas veiculadas pelas mídias. Existe sim gente desonesta, o que não significa que muitos outros não sejam dignos e corretos. 

Muita gente acha que ensinar integridade é impossível, porque ignoram que isso se faz basicamente através de exemplos de vida. Se os pais vivem de acordo com princípios, estarão encorajando os filhos a seguirem seus passos. Quer dizer, não mentindo, respeitando a lei, não querendo mudar as regras do jogo de acordo com as conveniências, e, especialmente, não disseminando amargura e descrença, simplesmente porque nem todos agem de maneira honesta. Na maioria dos casos, só essa forma de viver já será suficiente para que os filhos incorporem tais valores.... Afinal, não podem contestar: seus pais vivem de acordo com o que defendem!  É a nossa integridade que fundamenta a construção da identidade cidadã das novas gerações.

Tem coisa mais importante?

 

(*) Filósofa, mestre em Educação, conferencista e escritora com 25 livros publicados, entre os quais “Educar sem Culpa” e “Limites sem Trauma”. www.taniazagury.com.br