Além de prevenir a obesidade, uma alimentação balanceada é importante para todo o organismo. Nesta entrevista, a dentista Monica Tostes, doutora em Odontopediatria pela Universidade de São Paulo (USP) e professora dessa especialidade da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta os erros mais comuns que as famílias cometem em relação à saúde bucal das crianças e adolescentes. Ela enfatiza que pais e responsáveis têm papel fundamental na formação de hábitos que garantam um sorriso mais bonito e mais saudável. 

 

OBESIDADE INFANTIL NÃO: Qual é a idade ideal para se levar a criança ao dentista pela primeira vez e qual deve ser a frequência das visitas? 

 MONICA TOSTES: O ideal é que o atendimento seja feito à gestante, para que toda orientação seja dada antes do nascimento do bebê. Após o nascimento, é importante a orientação sobre a amamentação e a higienização. A frequência das visitas deve ser de acordo com a chance que a criança tem de desenvolver cárie. Esta avaliação é feita pelo dentista, mediante o relato dos pais na primeira consulta. Ele faz uma análise sobre o estado de saúde geral da criança, a dieta, a condição socioeconômica, a exposição ao fluoreto, o uso de medicamentos e a escovação. Crianças que têm uma dieta rica em carboidratos fermentáveis, como doces e biscoitos, amamentação prolongada e não têm higiene correta devem consultar o dentista a cada três ou seis meses. Crianças sem risco podem fazer consultas anuais. Aos três anos de idade, com a dentição decídua completa, ou seja, com todos os dentes de leite, podemos fazer uma avaliação ortodôntica.  

 

 OIN: Quais os erros mais frequentes cometidos pelas famílias em relação à saúde bucal de crianças e adolescentes? 

 MONICA TOSTES: Dois erros são frequentes: o consumo de alimentos, principalmente carboidratos fermentáveis, à vontade, sem horários e regras, e a falta de escovação ou de supervisão da escovação por um responsável. Outro erro muito frequente é escovar os dentes de crianças sem pasta de dente com flúor por medo de fluorose. O flúor comprovadamente previne a cárie e deve ser usado mesmo em crianças pequenas.  Essas crianças podem e devem escovar os dentes com a pasta que possui 1.100 partes por milhão (ppm) de flúor, desde que seja colocada uma pequena quantidade na escova – o equivalente a um grão de arroz – e haja a supervisão de um responsável. Isso aumenta a prevenção de cáries e diminui o risco de fluorose.

 

 OIN: Que medidas pais, familiares e professores podem adotar para incentivar hábitos de higiene oral adequados?

 MONICA TOSTES: Primeiramente, pais e responsáveis devem ter hábitos saudáveis, que serão transmitidos para seus filhos.  A criança precisa ter um horário pra escovar os dentes. Criar esta rotina é importante para a manutenção do hábito. A escovação deve ser encorajada de forma lúdica. Isso motiva a criança e faz da escovação um momento de prazer. Vale ressaltar que a escovação deve ser orientada e supervisionada pelos pais até a criança ter capacidade motora para executá-la sozinha, geralmente por volta dos nove anos de idade. Além disso, é importante incentivar a ingestão de alimentos saudáveis.

 

 OIN: Em sua opinião, guloseimas e refrigerantes devem ser completamente banidos da alimentação infantil ou há certa margem de tolerância? 

 MONICA TOSTES: Se a criança não possui outra condição de saúde que contraindique a ingestão desses alimentos, o consumo pode ser feito de forma inteligente. Sabe-se que a baixa qualidade dos alimentos e a grande frequência de ingestão aumentam a chance de a criança adquirir cárie. Então, as guloseimas devem ser ingeridas durante as principais refeições, como sobremesa, e não ficarem disponíveis para criança durante todo o dia. Isso aumenta a frequência de ingestão entre as refeições.

 

OIN: Além de cáries, que outros problemas orais uma criança com maus hábitos alimentares pode desenvolver?

 MONICA TOSTES: O maior problema ainda é a cárie, principalmente quando acomete crianças de baixa idade. Outra condição que vem aumentando e preocupa a comunidade cientifica é a erosão. Ela ocorre pela ingestão frequente de alimentos ácidos. As doenças ligadas ao periodonto, o tecido de suporte dos dentes, também podem ocorrer, principalmente gengivite, em adolescentes com escovação e alimentação inadequadas. Podemos encontrar também patologias na mucosa e defeitos de desenvolvimento devido à deficiência nutricional.

 

 OIN: Estudos recentes têm associado a ocorrência de cáries à obesidade infantil. Esses estudos apontam razões ainda inconclusivas sobre as causas dessa relação. A maior parte deles destaca que maus hábitos alimentares, como o consumo excessivo de guloseimas e outros alimentos ricos em açúcar, têm impacto não apenas no peso como na saúde bucal. Qual a sua visão sobre o assunto?

MONICA TOSTES: A ingestão frequente de alimentos ricos em hidratos de carbono fermentáveis é uma condição comum tanto para crianças com cárie como para crianças obesas. Realmente, vários artigos científicos correlacionam a presença de cárie e obesidade, porém ainda faltam estudos controlados para mostrar esta evidência, independentemente dos fatores socioeconômicos envolvidos. Educação alimentar e acesso a alimentos saudáveis podem melhorar as duas condições, em minha opinião.