Segundo o relatório “Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe”,  da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), 7,3% das crianças brasileiras menores de 5 anos de idade estão acima do peso. Mas qual é a diferença entre sobrepeso e obesidade? Por que é tão difícil para os pais identificarem o excesso de peso em seus filhos? A pediatra e nutróloga Mônica Moretzsohn, presidente do Comitê de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de janeiro (SOPERJ), esclarece essas e outras questões sobre o tema na entrevista a seguir.

 

OIN – Recentemente uma leitora do nosso portal relatou que sua filha pré-adolescente costuma se alimentar bem e praticar atividade física, porém está acima do peso. Por que isso acontece?  

MÔNICA MORETZSOHN - A obesidade está associada a fatores genéticos e ambientais. Filhos de pais obesos apresentam maior risco de se tornarem obesos na vida adulta do que filhos de pais no peso adequado. Em relação aos fatores ambientais, é importante avaliar na alimentação das crianças – mesmo quando comem bem e se exercitam - se elas consomem com frequência produtos ricos em gorduras e açúcares com alto teor calórico. Um exemplo é a ingestão exagerada de bebidas açucaradas, como sucos de frutas e refrigerantes.

 

OIN – Os pais tendem a avaliar erroneamente o peso dos filhos?

MÔNICA –É mais comum a percepção dos pais em relação à perda de peso do que o ganho. Em consultórios pediátricos, a queixa mais comum é de que o filho está magrinho. Isso tem uma explicação: após o primeiro ano de vida há uma diminuição do apetite e a criança ganha menos peso, cresce mais e fica com aparência mais magrinha. Por volta de 5 anos de idade, o apetite de meninos e meninas aumenta e este é um momento crítico para o desenvolvimento de sobrepeso ou obesidade, pois as crianças que têm hábitos alimentares pouco saudáveis tendem a consumir maior quantidade de alimentos calóricos. A adolescência é uma fase de intenso crescimento: o adolescente ganha 25% da altura e 50% do peso final. E a sua nutrição vai repercutir de forma definitiva na sua vida. Hábitos alimentares inadequados associados a uma maior autonomia na escolha dos alimentos podem contribuir para o excesso ou a carência de nutrientes.

 

 OIN – Qual é a diferença entre sobrepeso e obesidade infantil? Como é feito esse diagnóstico na faixa de 5 a 12 anos?  

MÔNICA – O indicador para avaliar o sobrepeso e a obesidade, recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pelo Ministério da Saúde, é o Índice de Massa Corporal (IMC), obtido pela fórmula peso/altura². Estes valores são colocados em gráficos específicos para a idade e o sexo. Considera-se sobrepeso crianças que apresentam IMC entre as curvas +1 e +2. E elas são classificadas obesas quando estão entre as curvas +2 e +3. Acima do +3 é obesidade grave. Outros métodos complementares para avaliação do excesso de gordura corporal são as medidas das pregas cutâneas (da pele) e da circunferência abdominal. Vale ressaltar que a obesidade é o excesso de tecido adiposo (gordura) e não maior peso corpóreo. Um adolescente musculoso pode ter o mesmo IMC de outro com excesso de peso. Daí ser necessária a avaliação do pediatra. 

 

OIN – Quais são os sinais de que a criança está com sobrepeso?

MÔNICA – O aumento do IMC e do peso nas curvas de crescimento é um sinal de alerta para o ganho excessivo de peso. Os pais podem observar uma mudança no padrão alimentar, como, por exemplo, o consumo maior e mais frequente na quantidade de alimentos, com consequente acúmulo de gordura localizada no abdômen. Outro sinal é a necessidade de trocas frequentes no vestuário do dia a dia. É uma forma indireta de avaliar o rápido ganho de peso, principalmente no que diz respeito à circunferência da cintura e não ao comprimento. 

  

OIN – Há crianças que engordaram depois que passaram a usar medicamentos de uso contínuo para tratar algumas doenças. Quais são os remédios pediátricos que favorecem o ganho de peso na infância?

MÔNICA – Corticosteroides (anti-inflamatórios), anti-histamínicos (antialérgicos) e antipsicóticos estão associados à manutenção ou ao ganho de peso. Esses medicamentos atuam provocando a fome, retardando a saciedade e diminuindo o gasto energético, favorecendo o acúmulo de gordura. O ganho de peso é reversível na maioria das vezes com a adoção de medidas educativas para alimentação saudável e prática de atividade física. As recomendações devem ser feitas de maneira individualizada e incluem evitar o consumo excessivo de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal. O acompanhamento desses pacientes pelo pediatra é importante para detectar sinais de carência ou excesso de nutrientes e, se necessário, determinar o tratamento para garantir o crescimento e o desenvolvimento.