Por Hélio Fernandes da Rocha

Parece que a História atual da Humanidade e do nosso país se resume a óleo e água. Onde há excesso de um, há redução da outra. Basta ver onde existe mais óleo na Terra e veremos que são os locais mais secos também. Essa separação geográfica é também uma dicotomia de significados com potencial de sucesso ou de danos de grandes proporções.

Óleo é a forma fluida das graxas. Numa licenciosidade bastante fácil, pois é praticamente a mesma coisa, podemos substituir o conceito de óleo/graxa por gorduras. Também é assim nos seres vivos. Um aumento das gorduras diminui o total de água no organismo. Neste momento passamos por uma escassez de água, faltam chuvas, mas também há desperdício deste fluido vital, solvente de quase tudo que é importante e regulador da temperatura na Terra. Temos petróleo de sobra e, mesmo sendo a forma de energia mais importante na economia, como a gordura é para o nosso corpo, o seu excesso polui o mundo assim como a gordura deforma o metabolismo dos seres vivos. Ambos têm potencial de causar doenças.

 Na sociedade atual o excesso de gordura humana é doença, a obesidade. Temos dela a maior epidemia da História da Humanidade, e, esta, diferentemente de todas as outras, não é aguda, mas crônica. A poluição e a redução dos recursos hídricos também são insidiosas e crônicas. Ambas coincidem seus malefícios em época de aparecimento e de afetação globais. Na escassez da água, falta energia limpa, aumentando os riscos de resíduos não removidos. No excesso de óleo, sobram poluição, corrupção, conflitos de interesses,  conflitos políticos e guerras. No excesso de gordura, há a imagem da opulência e da preguiça, porém o resultado real é vida de pior qualidade, doenças e morte precoce.

A água nos organismos está diretamente relacionada à energia. No processo de oxidação (combustão) orgânica, necessita-se de água para a transferência de nutrientes resultando em energia, gás carbônico e... água. A obesidade exige água para ocorrer, e, interessante, o emagrecimento devolve água. Á água também é necessária para o transporte e refrigeração do corpo e atua do mesmo modo no transporte do mineral e do orgânico na regeneração e conservação do meio ambiente.

Como nos desafios ambientais de água e óleo, o combate à obesidade exige uma dimensão muito maior do que um esforço pessoal. É quase impossível uma pessoa obesa vencer esse desafio sem ajuda e participação de outras pessoas dispostas e comprometidas a ajudá-la. Quando falamos da pandemia mundial de obesidade, o problema é gigantesco. Todos os esforços e toda a estrutura da Saúde, da Educação e de comunicação disponível devem ser colocados à disposição para que se possa contê-la. Não basta que esses esforços sejam demandados apenas pelo(s) governo(s). A participação da sociedade civil deve ser dirigida a todas as frentes onde haja ameaças da obesidade/doenças como também da poluição do óleo e da redução dos recursos de água.

O esforço exige que quem tenha responsabilidade com a promoção da Saúde também pense e atue na sustentabilidade do planeta: usando e promovendo a energia limpa; cuidando das suas escórias e lixos; vigiando para que outros colaborem; poupando energia; e promovendo a educação de seus parceiros para o uso criterioso e sustentável da água e da energia. Atuar ativamente para promover a relação positiva de mais água e menos óleo.

Aqueles quem não têm responsabilidade direta com a Saúde poderão atuar no combate à obesidade e às doenças crônicas não transmissíveis: promovendo a alimentação saudável, o movimento, a educação alimentar e fazendo investimentos na mesma direção.

Na confluência de todos os esforços está a Educação. Essa é a ferramenta que poderá garantir a sustentabilidade do planeta e o controle da obesidade. Os maiores beneficiários e os melhores agentes da Educação são as crianças. Os benefícios ou os prejuízos serão respectivamente creditados ou debitados nas suas contas e nas contas de todas as gerações futuras. O mundo e o futuro da Humanidade vivem na dicotomia água/gordura uma de suas encruzilhadas mais significativas. Água e óleo naturalmente não se misturam, mas simbolizam juntos o nosso sucesso ou o nosso fracasso. Nossa missão é separá-los desse aparente destino trágico e deles fazer o melhor uso para o bem da nossa História neste planetinha que não aguenta mais abusos.

*Helio Fernandes da Rocha é pediatra e chefe do Serviço de Nutrologia Pediátrica do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, da UFRJ.