Recentemente, o governo aprovou um projeto de lei que autoriza a produção, a comercialização e o consumo, sobre prescrição médica, dos anorexígenos (inibidores de apetite) anfepramona, femproporex e mazindol. Desde 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda dessas substâncias por falta de estudos que comprovassem a segurança e a eficácia do seu uso, ou seja, nenhum fabricante conseguiu demonstrar seus reais benefícios. Não existem estudos que avaliem as implicações do uso desse tipo de medicamento em adolescentes, sendo, portanto, contraindicados no tratamento da obesidade nessa faixa etária.

Em casos de adolescentes com obesidade grave, principalmente se associada a comorbidades (outras doenças), como, por exemplo, depressão e ansiedade, nos quais as orientações de mudança comportamental não forem efetivas, a utilização de medicamentos para auxiliar no processo de redução do peso pode ser discutida com os responsáveis. Uma vez iniciado o tratamento medicamentoso, os retornos ao médico devem ser mais curtos e a atenção aos efeitos colaterais deve ser monitorada com frequência.

Os anorexígenos são substancias derivadas da anfetamina, que agem no sistema nervoso central, aumentando a liberação de neurotransmissores (mensageiros químicos) no hipotálamo (área do cérebro que, entre outras funções, controla e regula a sede e a fome), e possuem a função de diminuir o apetite. São medicações que causam redução em curto prazo do peso corporal, mas que não é mantida com a interrupção do tratamento. Os efeitos colaterais incluem desde boca seca, náusea, vômitos e dor de cabeça, até sintomas mais graves, como palpitações, aumento da pressão arterial, tremores e ansiedade. Além disso, o uso permanente dessas drogas pode causar dependência psíquica e tolerância, isto é, cada vez se precisa de uma dose maior para atingir o efeito desejado.

A obesidade na infância e na adolescência vem aumentando sua incidência no mundo todo em decorrência de hábitos alimentares ruins e rotina mais sedentária. São peças fundamentais do tratamento a orientação sobre práticas alimentares saudáveis; modificações de hábitos e estilo de vida; ajustes na dinâmica familiar e incentivo à prática de atividade física. Em casos de obesidade grave ou quando outras doenças associadas já estão presentes, como diabetes, hipertensão arterial e colesterol elevado, sempre que possível deve-se recorrer a uma equipe multidisciplinar formada por pediatra que atue na área de nutrologia, psicólogo, nutricionista e outros profissionais.

Mônica Moretzsohn é presidente do Comitê de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ).

Júlia Donizetti Albuquerque é pediatra com formação em nutrologia.