Crianças e jovens em todo o mundo estão passando tempo demais diante das telas e, portanto, levando uma vida sedentária. Diante desse cenário, cientistas querem saber qual é o impacto no cérebro e no desenvolvimento da vida adulta ao assistir durante horas na infância a vídeos, jogar videogames e usar mídias sociais.

Para ter uma ideia, no Brasil, um levantamento com 3.068 famílias nas cinco regiões, com pais de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos de idade, mostrou que 80% usam internet. E ainda: “21% dos adolescentes deixaram de comer ou dormir por causa da internet, 17% pesquisaram como emagrecer, 10% procuraram dicas para machucar a si mesmos, 8% buscaram como experimentar ou usar drogas e 7%, formas de cometer suicídio”, segundo dados da análise realizada pelos Comitê Gestor da Internet (CGI) e Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação (Cetic.br), a “Tic Kids Online Brasil”.

Para saber qual é o impacto em longo prazo do tempo de tela, entre outros fatores, na saúde das crianças, cientistas americanos estão realizando o estudo “Adolescent Brain Cognitive Development” (“Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro do Adolescente”, ABCD, na sigla em inglês) com 11.500 meninos e meninas, entre 9 e 10 anos de idade, de diferentes partes dos Estados Unidos. Eles serão acompanhados durante dez anos. Os pesquisadores querem determinar como as experiências da infância (prática de esportes, uso de videogames, mídias sociais, hábitos de sono pouco saudáveis e uso do tabaco) interagem entre si e com a biologia de uma criança para afetar o desenvolvimento do seu cérebro, sua saúde e seu comportamento, sucesso acadêmico, entre outros aspectos.

A respeito do tempo gasto diante de telas por crianças e os efeitos no seu cérebro, o que os autores já descobriram? Dados iniciais de 4.500 participantes – publicados na revista científica “NeuroImage” – indicam que “não foram observados efeitos adversos relacionados com a quantidade do tempo de tela entre a maioria deles”, disse o doutor  Martin P. Paulus, do Laureate Institute for Brain Research, ao portal Medscape.

Porém, foram detectadas possíveis alterações em um grupo específico de crianças com muita exposição a telas. “Os participantes, cuja certa parte do cérebro (lobo) era mais imatura que outra, apresentaram ‘maior incidência de comportamento agressivo’ e níveis menores de ‘inteligência em termos de conhecimento’”, comentou Martin, acrescentando que “os pesquisadores ainda não têm certeza da associação entre muito tempo de tela e comportamento agressivo”. Contudo, ressaltou ao Medscape que “se uma criança estiver apresentando problemas como impulsividade e agressividade, pode ser uma boa ideia limitar as atividades com mídias em tela".

O que já se tem conhecimento, a partir de outros estudos, é que o uso excessivo de telas, bem como ter uma televisão na sala, eleva o risco de obesidade. Adolescentes que assistem a mais de cinco horas diariamente de televisão têm cinco vezes probabilidade de engordar em comparação com aqueles que não veem TV ou usam, no máximo, duas horas por dia, de acordo com a Academia Americana de Pediatria.

Enquanto os cientistas do “ABCD” não têm resultados definitivos, melhor seguir as recomendações dos pediatras. Veja um resumo do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre tempo de tela e crianças, no seu manual:

– A exposição às telas digitais deve ser evitada ou proibida a crianças menores de dois anos de idade, principalmente de conteúdos inadequados, durante as refeições ou perto da hora de ir para a cama. Se elas tiverem acesso a telas, um adulto deve estar presente.

– Crianças entre dois e cinco anos devem ter o tempo de exposição à tela limitado a uma hora por dia. E não deixe elas usarem telas digitais sem a presença de um adulto.

Duas horas por dia é o tempo máximo de uso de tela digital para crianças acima de seis anos e adolescentes.

Converse com seus filhos sobre a internet e as mídias sociais e quais os sites mais apropriados conforme o desenvolvimento e a maturidade de cada um.

Faça uma lista de sites recomendados, informe sobre os perigos e riscos da internet ou encontros com pessoas desconhecidas em mídias sociais ou fora delas.

Verifique a classificação indicativa para games, filmes e vídeos.

Estabeleça regras e limites bem claros e “concordantes” entre todos sobre o tempo de duração em jogos por dia ou no final de semana e sobre o uso de mídias sociais.

Evite postar fotos de seus filhos para pessoas desconhecidas ou público em geral. Aprenda sobre os meios de configuração de privacidade. Lembre-se de que a internet é um espaço público e as mensagens trocadas ficarão para sempre gravadas e accessíveis, como uma história, uma impressão digital.

“Saúde de Orientação – Crianças e Adolescentes na Era Digital "(<http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/11/19166d-MOrient-Saude-Crian-e-Adolesc.pdf>) 

Para mais informações sobre a pesquisa “Tic Kids Online Brasil”, acesse o site: <https://www.cetic.br/media/docs/publicacoes/2/TIC_Kids_2015_LIVRO_ELETRONICO>.

Para conhecer o estudo “ABCD”, acesse o link (em espanhol): <https://abcdstudy.org/index-sp.html>.