Para se manterem saudáveis, crianças e adolescentes devem, entre outras medidas, praticar ao menos 60 minutos diários de atividades físicas. Essa é a recomendação da Organização Mundial de saude (OMS) para a faixa etária de 5 a 17 anos. Com o aumento da violência, a redução das áreas de lazer nas residências e o uso crescente de distrações eletras, as crianças têm se movimentado cada vez menos. A prática de Educação Física nas escolas poderia ser uma estratégia para que a orientação da OMS fosse atendida. Na prática, porém, não é isso que acontece. De acordo com o Conselho Nacional de Educação Física, a Lei 10.328/01 prevê a obrigatoriedade da atividade na escola, mas não especifica frequência nem duração mínimas.

Na opinião do professor de Educação Física Roberto Costa, a disciplina não atinge seu potencial na promoção da saude porque, na maior parte das escolas pcas e particulares, privilegia os alunos que se destacam nas modalidades oferecidas. Para ele, que é doutor em Pediatria e atualmente desenvolve pesquisa de poutorado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina, o papel da Educação Física seria o de estimular estilos de vida ativos e hábitos saudáveis, como a prática regular de exercícios e a alimentação balanceada.

"Infelizmente, utiliza-se o esporte como fim e não como meio, privilegiando os mais aptos em detrimento daqueles alunos que mais precisam e mais se beneficiariam da prática de exercícios físicos."

Segundo o professor, a frequência semanal é de uma a duas aulas, sendo que muitas vezes as duas aulas ocorrem no mesmo dia, limitando ainda mais os benefícios que a disciplina poderia trazer à saude.

"Estudos realizados no Brasil mostram que, dos 50 minutos de uma aula de Educação Física na escola, em não mais do que 10 a 15 minutos os alunos se mantêm em uma faixa de frequência cardíaca capaz de promover resultados positivos à aptidão física relacionada à saude", afirma ele, que é diretor científico do Projeto Avaliando Escolares (www.avaliandoescolares.com.br).

Diferentes fatores contribuem para essa situação, afirma Costa. Na rede pca, muitas vezes não há espaço ou material para a prática da Educação Física, e, quando há, as aulas semanais são insuficientes e tratadas como algo que é obrigat, mas não é importante.

Na rede particular, mesmo quando há local e material, a valorização não é adequada. Algumas escolas fazem convênios com academias ou clubes para que os alunos façam uma modalidade específica, como ginástica ou natação, por exemplo, como se isso pudesse substituir a Educação Física", lamenta, destacando o caráter formativo da disciplina.

"Os anos iniciais da vida escolar são fundamentais para o aumento do repert motor e descoberta do prazer pela prática de exercícios físicos, o que aumenta a possibilidade de se tornar algo que possa acompanhá-los por toda a vida", diz o professor.

Se as atividades na escola não garantem os 60 minutos diários de movimentos, não é necessário, por outro lado, preencher a agenda da criança com atividades extracurriculares de segunda a sexta-feira. Medidas simples, como diminuir o tempo diante de tablets e TVs, são eficazes:

"Crianças e adolescentes têm passado muito tempo em atividades sedentárias. As horas de tela (tempo gasto com TV, videogames, computadores ou celulares) superam muitas vezes os 60 minutos diários", comenta o professor.

Estudos recentes apontam que apenas diminuir o tempo de tela já produz resultados positivos à saude. Realizar atividades orientadas por profissional de Educação Física, em academias ou escolas de esportes, seria o ideal, mas aumentar o nível de atividade física diária, retomando as brincadeiras mais ativas ou evitando as atividades sedentárias, já é um bom começo. Essas atividades podem ser realizadas de forma contínua ou acumulada, divididas em vários momentos do dia. Além disso, para aqueles que não abrem mão dos videogames, existem aqueles que envolvem a prática de exercícios corporais no lugar dos controles convencionais.

Outras estratégias são usar escadas em vez de elevadores, caminhar ou pedalar para a escola ou outras atividades diárias. Sempre com o incentivo e exemplo dos pais. O especialista afirma ainda que é preciso dosar a prática de exercícios, respeitando o organismo e garantindo o repouso necessário.

Para obter resultados positivos à saude, o organismo precisa de estímulo (exercício) e recuperação (repouso) na medida certa, acrescenta Costa. Assim, não é benéfico fazer todo o exercício somente num dia e passar o resto da semana sem estímulos. Aliás, muitos adultos fazem isso, que pode ser mais danoso para a saude do que ser sedentário.

"São os atletas de final de semana. O ideal é que os estímulos sejam diários quando de forma moderada e em dias alternados quando mais intensos. Nada impede que sejam realizadas duas atividades em um mesmo dia, desde que isso não se torne um estresse desnecessário ao organismo, assim a orientação profissional é fundamental", pondera Costa.