Valor energético, por porção e referência; diferentes tipos de proteínas; açúcares e gorduras; e aditivos alimentares. São tantas informações nas embalagens dos produtos que o consumidor tem dificuldade para entender o que está ingerindo. Com o intuito de tornar os rótulos nutricionais úteis e compreensíveis, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) elaborou uma proposta à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para atualizar as regras de rotulagem no Brasil. A iniciativa do Idec tem o apoio institucional da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Conversamos com a pediatra Virgínia Resende Silva Weffort, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP e responsável pela disciplina de Pediatria da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, para saber o que deve mudar.

Na opinião de Virgínia, no modelo atual de rotulagem nutricional as informações sobre os alimentos são pouco úteis e incompreensíveis para a maioria da população brasileira. “Tudo sobre o produto está nos rótulos, mas sem clareza, o que pode levar o consumidor a se alimentar de forma errada ou cometer excessos com relação à ingestão de sódio, açúcar e outros ingredientes. Ao ler os rótulos, as pessoas não entendem o quanto podem ou devem consumir. Não sabem se um produto é saudável ou não”, argumenta a pediatra.

Conheça as propostas do Idec para nova rotulagem nutricional

Inclusão de um selo – O instituto recomenda incluir um selo de advertência na parte da frente da embalagem de alimentos processados e ultraprocessados (como sopas instantâneas, refrigerantes, biscoitos etc.) para indicar quando há excesso dos nutrientes críticos: açúcar, sódio, gorduras totais e saturadas, além da presença de adoçante e gordura trans em qualquer quantidade. Segundo o Idec, esse tipo de sinalização visa apresentar a informação nutricional de forma sucinta, visível e compreensível para ajudar o consumidor a fazer escolhas alimentares mais saudáveis. A proposta do Idec de novas regras foi elaborada em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na visão de Virgínia, rótulos claros e compreensíveis ajudam a população em geral a fazer melhores escolhas para uma alimentação saudável.

Se tem selo, não tem publicidade – Todos os alimentos que receberem o selo de advertência estarão proibidos de exibir qualquer tipo de comunicação mercadológica direcionada a crianças (como personagens, desenhos ou brindes) e não poderão exibir informação nutricional complementar – aquelas mensagens como “rico em fibras” e “0% gordura trans” que induzem o consumidor a uma imagem saudável do produto. No entender de Virgínia, é preciso ter maior cuidado com relação à propaganda de produtos alimentícios industrializados, especialmente no caso das crianças. “Precisamos conscientizar a população para a necessidade de preferir os alimentos mais naturais, menos processados e com pouco sódio, açúcares e gorduras saturadas e trans. Oferecer qualquer alimento só porque a criança pediu não é uma ato de amor”, alerta.

Frases de advertência – De acordo com o Idec, os ingredientes culinários são importantes na dieta da população, uma vez que são necessários para cozinhar e preparar alimentos. Porém, devem ser consumidos em quantidades adequadas para assegurar uma alimentação saudável. Nesse sentido, são propostas frases de advertência em relação ao uso moderado para atenção dos consumidores, a serem veiculadas em rótulos de óleos vegetais (e.g., soja, milho, girassol, oliva), gorduras (e.g., manteiga) sal e açúcar.

Tipos de alimentos – Para os especialistas do Idec, alimentos in natura ou minimamente processados (arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, castanhas, nozes e sementes, farinha de milho, de mandioca, carnes e peixes frescos ou resfriados, ovos, etc.) são recomendados como parte de uma alimentação adequada e saudável, com base no ”Guia Alimentar para a População Brasileira”. Por isso, não deverão ter nenhum tipo de advertência.

Padrões legíveis – A proposta do Idec visa padronizar a exibição dos elementos da rotulagem nutricional já existentes, em especial a lista de ingredientes e a tabela nutricional. Entre as definições previstas estão tamanho mínimo de letra e tipografia específica, fundo branco, que garanta contraste suficiente para a leitura, e espaçamento adequado entre os itens.

Porções reais e comparáveis – O Idec propõe que “as informações nutricionais de um produto deverão ser apresentadas por 100g ou por embalagem (conteúdo completo). Dessa forma, será mais fácil comparar a quantidade de calorias ou outro nutriente para a mesma quantidade de dois produtos diferentes. Além disso, a tabela nutricional deverá respeitar regras que garantem a legibilidade das informações”.

Lista de ingredientes mais visível – Na sugestão do Idec, a lista de ingredientes deve ser mais visível. Nela deverá ser obrigatória a declaração do número total de ingredientes. Com essas informações, ficará mais fácil verificar o grau de processamento de um produto: se a lista apresenta muitos ingredientes e com nomes pouco familiares, provavelmente esse alimento é ultraprocessado e prejudicial à saúde. Além do mais, deverão ser garantidas regras para a boa leitura do consumidor.

Outras propostas – A Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) propõe para a rotulagem nutricional um modelo conhecido como Nutri-score, que é usado na França. Ele avalia cada alimento de acordo com sua qualidade nutricional como um todo, incluindo os ingredientes bons e ruins para a saúde. E informa também o que tem de positivo e negativo num produto. Nesse padrão, as classificações são indicadas por letras e cores diferentes: varia do verde (classificação A) para alimentos com a melhor qualidade nutricional, ao laranja escuro (classificação E) para produtos de pior qualidade.

Há uma outra proposta da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), que prefere o modelo que utiliza as cores do sinal de trânsito – verde, amarelo e vermelho –, para chamar a atenção sobre quantidades de ingredientes. A cor verde demonstra que “os níveis do nutriente em questão (açúcar, gordura saturada ou sódio) são considerados baixos ou adequados para o consumo do alimento na porção quando associado a uma alimentação diária equilibrada”. A cor amarela avisa que “os níveis do nutriente merecem atenção, pois sinalizam que um consumo acima da porção recomendada pode comprometer o equilíbrio da alimentação diária”. A cor vermelha indica que “os níveis do nutriente são considerados altos na porção diária recomendada e por isso devem ter uma atenção maior de consumo, quando associados a uma alimentação equilibrada”. Uma pesquisa recente realizada pelo IBOPE Inteligência mostrou que 67% das pessoas, ou seja, cerca de 7 em cada 10 entrevistados, optaram pelo semáforo nutricional, contra 31% que declaram preferir o modelo de advertência nos rótulos de alimentos e bebidas.