A maioria dos brasileiros se sente culpada por oferecer produtos prontos às crianças, mas considera esse comportamento inevitável. Esse é um dos dados da pesquisa “Desafios da alimentação infantil” realizada a partir de 1.044 entrevistas online com homens e mulheres, entre 25 e 55 anos, com filhos de seis meses a 12 anos de idade, das classes A, B e C, de todas as cinco regiões do país, pela REDS (Research Designed for Strategy), uma empresa de pesquisa de mercado e consultoria com expertise em consumidores. Pressionados por pediatras, nutricionistas e mídia para que não deem alimentos industrializados aos filhos, os pais se veem em uma situação difícil.

Segundo a pesquisa, três em cada quatro pais estão insatisfeitos com as opções de alimentos infantis encontradas nos mercados. Mas, com o tempo cada vez mais curto para tantas tarefas, não dão conta de oferecer uma alimentação balanceada aos filhos. “Eles carregam uma grande culpa se não fizerem a papinha perfeita com as próprias mãos, o lanchinho saudável, o suco natural, entre outras coisas. Sem tempo, o perfeito, o saudável e, principalmente, o feito em casa estão se distanciando do dia a dia das famílias”, diz Karina Milaré, diretora da REDS.

Ainda de acordo com o levantamento, 59% dos pais relataram que procuram ter orientação profissional (de médico ou nutricionista) para a alimentação dos filhos. E depositam elevada confiança (8,79 em uma escala de um a dez) no profissional. Porém, menos de 1/3 dos entrevistados considera as instruções totalmente aplicáveis ao seu dia a dia. Resultado: 86% deles acabam fazendo adaptações ao cardápio das crianças.

“Percebemos na pesquisa uma postura dos pais de querer mudar suas atitudes com relação à alimentação dos filhos. Tudo indica que, mais do que precisarem de uma cartilha sobre alimentação dos filhos, os pais necessitam de conhecimento para fazerem as melhores escolhas dentro de seus contextos familiares. Há um sentimento/desejo de querer e precisar mudar”, declara Karina.

 

Confira outros dados da pesquisa da REDS, empresa da holding HSR Specialist Researchers

Mães sobrecarregadas –Embora os homens estejam entrando no universo da alimentação infantil, a comida das crianças em casa ainda é, na realidade, de responsabilidade das mães, especialmente nas classes mais baixas. Já nas classes mais altas, a divisão da tarefa é mais bem equilibrada. Pais ou mães que não trabalham fora assumem essa tarefa para si com mais frequência. A partir dos 10 anos de idade, a escolha do que o filho vai comer começa a escapar das mãos dos pais, principalmente no almoço e no jantar. Folhas e peixes são os alimentos que menos entram no cardápio das crianças de 11 meses a 12 anos. Alimentos congelados e refrigerantes são oferecidos a mais de 20% das crianças com menos de 11 meses. 

Orientação do profissional – Entre os pais que procuram orientação sobre a alimentação dos filhos, o pediatra é a principal fonte. Entre os motivos para não procurar ajuda estão: “Gosto de fazer do meu jeito”, “Fui orientada por parentes”, “Já tenho experiência com outro filho” e “Pesquisei as informações necessárias na internet”. E 3/4 dos pais entrevistados confiam nas orientações passadas pelo médico. Por outro lado, menos de 1/3 dos pais consideram as orientações médicas totalmente aplicáveis ao dia a dia, principalmente os pais acima de 40 anos da classe B2C. Por isso, 86% acabam fazendo adaptações nas orientações, principalmente as mães acima de 30 anos.

Quanto menos radical o pediatra for, maior será a adesão às suas recomendações – Algumas instruções são consideradas exageras pelos entrevistados. Por exemplo, fazer a criança comer a cada três horas, não colocá-la na escola antes dos 2 anos de idade. Uma das mães comentou: “Eu acato a maioria das recomendações da pediatra. Mas sinto que quanto mais a minha filha cresce, maior a tendência de não seguir tão à risca. A pediatra orienta não oferecer leite regularmente, principalmente quando ela está com tosse, porque ajuda na formação de secreção. Mas minha filha gosta tanto de leite que acabo dando.”

Creches e escolas – A maioria dos filhos (52%) dos entrevistados frequenta esses estabelecimentos em meio período. Boa parte das crianças entre 1 e 5 anos consome o café da manhã e o almoço nas escolas e berçários, o que mostra a importância dessas instituições na formação alimentar das crianças. Os pais querem aumentar sua influência e cuidar pessoalmente dos lanches dos filhos e da escolha de cardápios. Mas o lanche da escola é a refeição que, segundo os entrevistados, é a mais difícil de fugir dos produtos industrializados. Em contrapartida, o jantar acaba sendo a refeição em que eles têm maior controle na refeição do filho e, por isso, procuram ser mais naturais.

Pressão sobre a indústria alimentícia – Pão, achocolatado e iogurte são os produtos mais presentes nas refeições das crianças. Refrigerante, salgadinho e macarrão instantâneo, ainda que considerados “alimentos nocivos" por muitos entrevistados, são comuns nos lares com crianças. A maioria dos pais gostaria de deixar de dar esses produtos aos filhos, mas não consegue abrir mão devido à praticidade e à certeza de agradar o paladar infantil. Karina observa que, no curto prazo, parece não haver problemas para a indústria, pois, mesmo insatisfeitos com a oferta, os pais continuam oferecendo os produtos prontos aos filhos. Por outro lado, os pais estão mais atentos e exigentes. Mais de 70% deles costumam ler os rótulos. Esse hábito é ainda maior na classe AB1, entre mães acima de 30 anos e os entrevistados que pedem orientação profissional.