Hoje, a publicidade vem se apresentando de maneira cada vez mais disfarçada, principalmente em meio a conteúdos audiovisuais na internet. E com ela, surgem os influenciadores digitais. Alguns deles são crianças, o que torna o ambiente digital ainda mais arriscado para a meninada, que passa horas diante das telas. Conversamos com Livia Cattaruzzi, advogada do programa “Criança e Consumo”, do Instituto Alana, para entendermos esse cenário recente e suas armadilhas. 

 

A internet não é a vilã – É, na verdade, uma terra de oportunidades e riscos. Existem usos interessantes, educativos, que promovem brincadeiras divertidas, trabalham a capacidade de sociabilidade, garantem a cidadania da criança etc. Mas também há usos prejudiciais, pois costuma ser uma atividade individual que, em excesso, distancia a criança da família e da natureza. O que é importante é a mediação, ou seja, que os pais assistam aos conteúdos junto com as crianças, como se fazia antigamente com a TV. É importante conversar com elas, tentando explicar, ao máximo, o que são esses conteúdos. Limitar e controlar o tempo de tela também é fundamental. Outra dica é propor brincadeiras e outras atividades que não envolvam a mídia e o consumo de telas.

YouTube requer atenção maior – A plataforma não é perigosa em si, mas, quando falamos de criança, há uma preocupação maior. Porque ela cria uma relação de proximidade e de intimidade com esses influenciadores digitais. Quando o canal é estrelado por outra criança, então, é preciso cuidado redobrado. Diferentemente dos comerciais de TV, de tempo curto e fácil identificação, como propaganda, no YouTube as crianças ficam diante de alguém da idade delas (ou mesmo adultos jovens que falam para crianças), que estão brincando com determinados brinquedos e consumindo determinados alimentos. Elas vão querer brincar e comer da mesma forma. E até entender os famosos e perigosos desafios como uma brincadeira. Principalmente se tiverem menos de seis anos, quando ainda não diferenciam publicidade de conteúdo. Até os 12 anos não compreendem o caráter persuasivo, de convencimento, da propaganda. É por isso que temos normas claras no Código de Defesa do Consumidor e no Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, que tornam a publicidade direcionada à criança no Brasil proibida em quaisquer ambientes: TV, internet, parques, escolas. Mesmo assim, a quantidade de conteúdo voltado para crianças no YouTube Brasil está crescendo. Segundo pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), realizada entre 2015 e 2016, entre os cem canais de maior audiência, 48 abordam conteúdo direcionado ou consumido por crianças de zero a 12 anos; em 2015 eram 36 canais.

Responsabilidade de todos Outro problema de plataformas como YouTube é a quantidade de fatores envolvidos: temos crianças produzindo, crianças assistindo, publicidade velada (quando os vídeos não informam de maneira transparente que têm conteúdo publicitário), reprodução automática de conteúdos que, nem sempre são indicados para crianças e outros. Por isso, não existem maneiras simples de identificar e denunciar as propagandas direcionadas às crianças. E a responsabilidade não é exclusiva das famílias. Toda a sociedade (Estado, família, educadores, pessoas e empresas) deve agir em conjunto para garantir os interesses e a proteção das crianças. O mais importante é mesmo acompanhar o que elas estão assistindo: da mesma maneira que a criança não atravessa a rua sozinha, ela não deve circular por esse ambiente sozinha.

 

Saiba mais sobre o programa “Criança e Consumo”, do Instituto Alana, através do link : <http://alana.org.br/project/crianca-e-consumo/>.