Por Edimilson Migowski

 

Quando o objetivo é reduzir a dor, o sofrimento e a possibilidade de graves sequelas e mortes, nenhuma outra ferramenta em saúde pública chega perto dos resultados obtidos com coberturas vacinais excelentes. A vacina está, merecidamente, entre as 10 maiores descobertas da medicina, ao lado dos anestésicos e antibióticos. Novas vacinas, mais seguras, purificadas e eficazes, foram sendo disponibilizadas e, aos poucos, foi ficando no passado remoto a lembrança de doenças que ceifaram precocemente tantas vidas. Algumas se tornaram raridades (ainda bem!), como o tétano neonatal, difteria e meningite pela bactéria Haemophilus influenzae tipo b. Muitos médicos, formados há décadas, nunca viram um caso sequer. Imagine: se os profissionais de saúde não veem mais essas doenças, muito menos o restante da população.

 

A eficácia de inúmeras vacinas vem dando a falsa ideia de que algumas doenças foram erradicadas. A dor de perder um ente querido por doença que pode ser evitada por vacinação ou de ver uma criança morrendo por hepatite A são experiências desagradáveis vividas cada vez por menos pessoas. Surgem então as falsas percepções de que não vale a pena se vacinar para evitar doenças que “não existem mais”, ou ainda de que os efeitos adversos atribuídos a algumas vacinas são frequentes e mais graves do que as doenças que se deseja evitar. Aí mora o perigo! As versões dos fatos provenientes dos grupos antivacinas ou de fake news das mídias digitais não podem ser mais fortes e ter mais peso do que os fatos e dados em si. Foi com a utilização de vacinas que se erradicou a varíola no mundo e se controlou a paralisia infantil, o sarampo e a rubéola congênita em vários países, para dar alguns exemplos.

 

Ainda que as vacinas, em geral, sejam eficazes na prevenção de praticamente 100% dos corretamente vacinados, algumas pessoas podem não desenvolver uma resposta imune que as tornem protegidas. Ao longo dos anos, a proteção que um imunizante proporcionou também pode ser perdida. Assim, quando uma pessoa se vacina, ela faz isso para o seu próprio bem, e, no caso de muitas doenças, esse ato também protege a coletividade. Uma pessoa só pega sarampo de outra pessoa. Se 99,9% da população estiver imunizada, uma ou outra pessoa que não pode se vacinar por contraindicação médica não adoecerá. Afinal, de quem ela pegará sarampo se virtualmente todos estiverem imunizados? As pessoas que gritam pelos quatro cantos do mundo que não vacinam seus filhos e eles não adoecem se valem de pessoas como eu, que, como a maioria da sociedade, vacina os filhos e a si próprio.

 

 

*Edimilson Migowskié pediatra, presidente do Instituto Vital Brazil, diretor-presidente do Instituto Prevenir É Saúde e ex-diretor-geral do Instituto de Pediatria da UFRJ (2011-2016) – IPPMG/UFRJ

 

 

A BBC News Brasil entrevistou em julho especialistas para esclarecer as principais dúvidas sobre o sarampo. Confira através do link: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44857772>.