O portal Obesidade Infantil Não teve acesso, em primeira mão, ao guia: “Os 10 passos para alimentação e hábitos saudáveis – Do nascimento até os 2 anos de idade”. Um material criado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em parceria estratégica com a Amil, que será lançado ainda este ano, como material do Selo UNICEF (um programa voltado para os 1.919 municípios inscritos do Semiárido e da Amazônia). Confira a entrevista com a coordenadora-geral da publicação Cristina Albuquerque, chefe de Saúde, HIV/Aids e Desenvolvimento Infantil do UNICEF no Brasil.

 

OIN – Como surgiu a ideia de produzir “Os 10 passos para alimentação e hábitos saudáveis – Do nascimento até os 2 anos de idade”?

 

CRISTINA ALBUQUERQUE – Esse guia surgiu em uma discussão entre UNICEF e Ministério da Saúde no início de 2017, coincidentemente, na época em que também discutíamos a parceria com a Amil. Há alguns anos, o Ministério da Saúde lançou um guia para profissionais de saúde, que tratava exatamente de 10 passos de alimentação saudável para a criança menor de 2 anos. Esse guia vinha em processo de revisão e queríamos que ficasse pronto para depois traduzirmos toda aquela linguagem técnica. A ideia era que o guia “traduzido” pudesse ser usado com famílias, lideranças e agentes comunitários de saúde, ou seja, com pessoas leigas. Com a oportunidade que tivemos de fazer a parceria com a Amil, fechamos o nosso guia: “Os 10 passos para alimentação e hábitos saudáveis – Do nascimento até os 2 anos de idade”. Ainda estamos planejando uma estratégia de lançamento, mas será este ano ainda.

 

OIN – Qual o objetivo desse projeto?

 CRISTINA - Contribuir com todo o movimento do governo, da sociedade e inclusive de empresas como a Amil para tornar a alimentação da criança saudável, desde bebê. É nessa faixa etária, até os 3, 4 anos, que as crianças adquirem muitos dos seus bons ou maus hábitos alimentares. Então, é essencial ter esse trabalho voltado para o aleitamento materno e para o momento em que a família precisa começar a introduzir novos alimentos, a partir dos 6 meses de idade. Aí, mora o perigo! A intenção é começar com esse trabalho desde a gestação e seguir o caminho, acompanhando o crescimento da criança.

 

OIN – Por que esse tema foi escolhido?

 CRISTINA – O UNICEF tem trabalhado na área da prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, com ênfase na questão da obesidade. No Brasil, 10% das crianças de 5 a 9 anos já apresentam sobrepeso e observamos essa tendência em quase metade da população brasileira. O sobrepeso é uma epidemia global, não ocorre só aqui. É urgente que nós possamos trabalhar na prevenção, por isso, o guia é direcionado a bebês e crianças menores de dois anos.

 

OIN – O UNICEF tem outros materiais sobre alimentação e hábitos saudáveis direcionados ao público leigo?

 CRISTINA – Não, esse é o primeiro. Essa pauta tornou-se muito forte para nós há dois anos. A gente sempre trabalhou no aleitamento materno, mas o salto agora é o aleitamento materno e a alimentação complementar saudável. A criança deve consumir o leite materno exclusivamente até os 6 meses de idade. Então, alimentos saudáveis devem ser oferecidos, como indica o passo-a-passo do guia. Por enquanto, esse material é o mais indicado para o público leigo mesmo, além do “Comer bem e melhor – Dicas para promover alimentação saudável entre crianças e adolescentes”. Esse outro material já está disponível na biblioteca virtual do UNICEF, mas deverá ser lançado junto com o guia e é voltado para as dez capitais brasileiras onde o UNICEF atua. Ainda não discutimos sobre a produção de novos materiais como esses, porque estamos voltados para uma agenda relacionada às eleições: regulamentação da indústria de alimentos (ultraprocessados e bebidas açucaradas, em especial), rotulagem frontal, regulamentação em nível federal das cantinas escolares e outros.

 

OIN – De que forma publicações como essa podem ajudar na prevenção da obesidade infantil?

 CRISTINA – O segredo é a informação. Ainda existe muita desinformação mesmo sobre o aleitamento: muitas mulheres ainda oferecem chá ou água nos primeiros 6 meses de idade da criança. Inclusive, há estudos que mencionam casos de bebês de 4 meses tomando refrigerantes na mamadeira. Além disso, como o alimento ultraprocessado tende a ser mais barato, nos preocupamos especialmente com os grupos de menor renda. O brasileiro parou de comer comida saudável in natura e começou a migrar para o fast-food e ultraprocessados, é preciso reverter isso. Precisamos resgatar a questão de dar comida “de verdade” para as crianças. Mas estamos falando de uma mudança de cultura, isso não se faz em um ou dois anos. Então, a possibilidade de uma parceria com a Amil, em um longo prazo, nos possibilita trabalhar mais esse tema pelos próximos anos.

 

Depois de lançado, a ideia é disponibilizar “Os 10 passos para alimentação e hábitos saudáveis – Do nascimento até os 2 anos de idade” na biblioteca virtual do UNICEF, através do site: <https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_36955.html>. Você também encontra as publicações voltadas para o Selo UNICEF disponíveis em: <http://www.selounicef.org.br/biblioteca>.

 

 

Confira as dicas do guia do UNICEF

 

Passo 1 – Amamentação: ofereça apenas leite materno nos primeiros 6 meses de vida.

 Dicas – Aponte a mama para o nariz do bebê. Ele vai abrir a boca e mamar bem, sem machucar o peito. Existem várias posições para amamentar. A mãe pode escolher a melhor para ela e o bebê. Bebê dormindo ou com sono não mama. Em geral, ele acorda quando está com fome. Amamente sem hora marcada, nem controlando o tempo. O bebê sabe quando está satisfeito. A mãe que amamenta precisa beber muita água! Durante a mamada, o leite que sai primeiro tem mais água e o que sai no final sustenta mais. Deixe o bebê mamar bastante em cada mama. Se ele dormir, na próxima mamada, ele mama no outro peito. Assim, o bebê vai ficar mais satisfeito e dormir mais.    

 

Saiba mais – O leite materno tem tudo de que o bebê precisa até os 6 meses, inclusive água. Nessa fase, não se deve oferecer chás, sucos ou água. Criança que só mama no peito até o sexto mês cresce com mais saúde, adoece menos e desenvolve melhor o cérebro.

 

 

Passo 2 – Não ofereça açúcar!

 Dicas – Não ofereça nada com açúcar, mel ou melado ao bebê. Nem um pouquinho!"        "O açúcar no chá ou em outro líquido vai atrapalhar o aleitamento materno e pode deixar o bebê mais agitado. Não ofereça mel no primeiro ano de vida, pois pode conter bactérias perigosas para o bebê. Após o primeiro ano, deve ser evitado, pois é muito doce. As bactérias da cárie adoram açúcar: com açúcar, a bactéria cresce, fica forte e consegue furar o dente. Por isso, nada de açúcar antes dos 2 anos. Escove os dentes da criança duas vezes por dia. Uma dessas vezes tem que ser à noite, antes de dormir. Pasta de dente é importante: Pode usar a pasta com flúor, pode ser a mesma pasta da família. A quantidade de pasta com flúor deve ser equivalente ao tamanho de um grão de arroz.

 

Saiba mais – O leite materno tem vários sabores. A alimentação saudável da mãe durante a amamentação ajuda na formação dos hábitos alimentares da criança. O bebê que experimenta açúcar nos primeiros dois anos vai ter maior preferência por doces e alimentos não saudáveis por toda a vida. Cuidar dos dentes do bebê, desde o início, garante dentes saudáveis.

 

 

Passo 3 – Sexto mês de vida, momento para novos alimentos

 Dicas – A partir dos 6 meses, além de o leite materno, você pode oferecer uma fruta pela manhã; o almoço (legumes, frango ou peixe ou carne); e outra fruta à tarde. Um bom cardápio do dia pode ser: banana como lanche da manhã; arroz, carne e cenoura como almoço; e maçã como lanche da tarde. A partir dos 7 meses, você já pode incluir o jantar (legumes, frango ou peixe ou carne). Um bom cardápio do dia pode ser: melancia como lanche da manhã; batata, peixe e couve como almoço; mamão como lanche da tarde; arroz, abobrinha e frango como jantar. Estimule o bebê a comer alguns alimentos com as mãos. Incentive o bebê a comer sozinho com a colher.

 

 Saiba mais – A alimentação oferecida ao bebê depois dos 6 meses deve ser composta de arroz, feijões, raízes, verduras, legumes, carnes, ovo, frutas. Mas é importante continuar amamentando a criança até os 2 anos. Dos 8 aos 12 meses, aos poucos, você pode passar o bebê para a alimentação da família, desde que tenha pouco sal, pouco tempero e pouco óleo. Dos 12 aos 24 meses, o bebê já pode estar integrado à alimentação da família, com preparações caseiras feitas com alimentos e temperos naturais. Continue usando pouco óleo e pouco sal. Para o bebê ter hábitos alimentares saudáveis, a alimentação da família também tem que ser saudável.

 

 

Passo 4 – Criança com fome come comida de verdade

 Dicas – As refeições devem ser oferecidas na hora em que o bebê estiver com fome. Em geral, duas horas sem comer ou beber nada são suficientes para o bebê ficar com fome. Se o bebê se recusar a comer a refeição, não insista, ofereça novamente mais tarde. Aos 12 meses, o bebê tem que comer em cada refeição (almoço e jantar) aproximadamente 10 colheres (das de sopa) de comida. Essa quantidade vai garantir a energia e vitaminas de que ele precisa para crescer saudável. Comida caseira é do que o bebê precisa para crescer saudável.

 

Saiba mais – Ofereça as frutas e as refeições (almoço e jantar) no momento em que o bebê mostrar sinais de fome. Assim, ele vai comer quantidades suficientes para ter todas as vitaminas de que precisa para crescer. Não substitua a refeição; ofereça-a mais tarde. No começo, os bebês comem pouco! Por isso, continuar amamentando é tão importante. Não substitua as refeições (almoço e jantar) por mingaus, biscoitos, sucos, refrigerantes, doces, iogurtes, bolos, bebidas açucaradas ou alimentos em mamadeiras.

 

 

Passo 5 – Estimular o bebê a mastigar

 Dicas – A refeição do bebê tem que ser espessa, nada de caldos ou sopas ralas. Ofereça os alimentos amassados. Nunca passe no liquidificador ou na peneira. Os alimentos devem ser bem cozidos e amassados com garfo. As refeições com carnes e peixes bem cozidos e desfiados ajudam a deixar os bebês livres de anemia e mais inteligentes. A partir dos 9 meses, a criança já consegue mastigar alimentos de consistência igual à da família.

 

Saiba mais – A mastigação vai fortalecer a bochecha do bebê, ajudar na formação dos dentes e no desenvolvimento da fala. Se o bebê aprende a mastigar cedo, ele vai aceitar a alimentação da família com facilidade. Mesmo sem dentinhos, os bebês conseguem esmagar e engolir os alimentos.

 

 Passo 6 – Oferecer alimentos saudáveis: grãos, raízes, carnes, frutas e verduras

 Dicas – Ofereça comida de panela feita com alimentos de verdade, como: arroz, feijão, lentilha, batata, batata-doce, quiabo, cará, couve-flor, inhame, jerimum (abóbora), abobrinha, cenoura, beterraba, folhas verdes, peixe, carne, frango, fígado de boi e de galinha. NÃO OFEREÇA: linguiça, pizza, mortadela, empanados de frango, batatas fritas, macarrão instantâneo. Ofereça as seguintes combinações para as refeições do bebê (almoço e jantar): aipim, peixe e abóbora; arroz, feijão e quiabo; fubá, carne e folha verde; cará, galinha e folha verde; arroz, ovo e abobrinha etc. Ao preparar as refeições, use um alimento de cada um dos grupos. Grupo 1: arroz, macaxeira (aipim), ariá (batata paraense), batatas, cará, inhame, macarrão, fubá, tapioca, farinha de mandioca. Grupo 2: ovo, feijões, grão-de-bico, lentilha, algaroba, peixe, carne de boi. Grupo 3: abóbora, cenoura, beterraba, quiabo, folhas verdes, chuchu, couve-flor etc. Faça outras combinações, de acordo com os alimentos da sua região.

 

Saiba mais – Alimentos com muito sal, gordura, açúcar e corantes fazem mal para a saúde de qualquer pessoa, principalmente para a dos bebês. Siga a regra dos três: Um alimento de cada grupo nas refeições (almoço e jantar).

 

 

Passo 7 – Verduras, legumes e frutas

 Dicas - Escolha os alimentos de diferentes cores para preparar a refeição do bebê. Se o bebê não aceitar bem um determinado alimento, não se preocupe, ofereça novamente em outro dia. Procure variar as verduras, os legumes e as frutas. Isso garante as vitaminas de que o bebê precisa. Leve o bebê à feira ou ao mercado. Aproveite para conversar e dizer o nome dos alimentos e suas cores. Nos intervalos, além de frutas, você pode oferecer: batata-doce, macaxeira (aipim), jerimum (abóbora) amassados ou em pedaços.

 

Saiba mais – O colorido dos alimentos torna a refeição divertida. Todas as verduras e frutas podem ser consumidas! O que você encontra em sua comunidade? O bebê pode comer de tudo que nasce na terra e dá em árvores. É até os 2 anos que a criança adquire o gosto por alimentos saudáveis que pode durar pela vida toda.

 

 

Passo 8 – Antes dos 2 anos, nada de doces, biscoitos, salgadinhos, café, refrigerantes ou gelatina

 Dicas – Não ofereça refrigerantes mesmo após os 2 anos! Olhe os ingredientes do rótulo. Se houver açúcar, não dê ao bebê. Se o bebê estiver de olho num doce, oferte uma fruta. Não ofereça alimentos com açúcar, muito sal ou muita gordura para as crianças experimentarem, pois o “gosto” está em formação. Na hora das refeições, desligue a televisão e o celular! Conversar com o bebê enquanto ele se alimenta estimula o cérebro.

 

Saiba mais – Mesmo após os 2 anos, evitar todos esses produtos: balas, refrigerantes, café, biscoitos recheados, salgadinhos e outros. A oferta desses alimentos (docinhos, salgados, frituras e outros) atrapalha o consumo de alimentos nutritivos, como verduras, legumes e frutas. Garantir a saúde do bebê com alimentos saudáveis é responsabilidade da família. Os primeiros 2 anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança e de hábitos alimentares saudáveis.

 

 

Passo 9 – Lave bem as mãos, os alimentos e os utensílios

 Dicas – Lave bem as mãos antes de pegar o bebê e preparar os alimentos. Lave as mãos do bebê também. Lave bem todos os alimentos antes de preparar as refeições. Lave bem todos os utensílios de preparo das refeições dos bebês. A água deve ser tratada: filtrada e fervida. Não use mamadeiras para dar água. Prefira o copo. Sobras de alimentos do prato não devem ser guardadas e nem oferecidas novamente.

 

Saiba mais – A limpeza dos alimentos, utensílios e das mãos evitam doenças como a diarreia. A mamadeira e a chupeta podem ser objetos que abrigam germes. Além disso, beber água no copo ajuda no desenvolvimento do bebê. A higiene é muito importante para o bebê. Agora que o bebê está consumindo outros alimentos, tem que tomar água.

 

 

Passo 10 – Bebê ativo é bebê saudável e feliz                                             

Dicas – Deixe os brinquedos perto, para o bebê se movimentar e alcançá-los. Utilize uma bola para despertar o gosto pelo esporte, pelo exercício físico e por atividades ao ar livre, de preferência em companhia de outras crianças. Leve a criança para passear, mesmo que caminhe com auxílio. Crianças de até 2 anos não devem assistir à televisão. Depois dos 2 anos, somente duas horas por dia; Empilhar objetos também ajuda no desenvolvimento. Imitar os movimentos do bebê vai estimular o seu desenvolvimento cerebral.

 

Saiba mais – Os hábitos saudáveis começam nos primeiros 2 anos de vida, por isso, o bebê deve ser estimulado a ser ativo para crescer esperto e saudável. É importante saber: bebê acima do peso não significa bebê saudável. Bebês acima do peso depois dos 6 meses podem se tornar crianças gordinhas e até adolescentes obesos! Nem muito, nem pouco! Acompanhe, no serviço de saúde, o ganho de peso do bebê e veja se o profissional de saúde anotou os dados na caderneta da criança. Depois que a obesidade se instala é muito difícil resolver. Vamos prevenir.