Na visão do psicólogo Vitor Friary, responsável técnico pelo Projeto de Terapia Cognitiva baseada em “mindfulness” (atenção plena) para Crianças, na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, obesidade e sobrepeso podem ser associados à alimentação compulsiva. E os transtornos de compulsão alimentar, por sua vez, vêm acompanhados de depressão, problemas de autoestima, de humor e baixa tolerância ao desconforto. ”O papel do cérebro na obesidade é muito importante. Parte da obesidade vem da incapacidade de as pessoas lidarem com a impulsividade, um dos fatores perpetuadores dos transtornos alimentares“, esclarece. A seguir, atente-se à entrevista com Vitor Friary e compreenda por que isso acontece e de que modo pode ser prevenido.

 

 

OIN – Uma pessoa que tem obesidade tende a pensar sobre si mesma de uma forma negativa?

 

VITOR FRIARY– Sim.Além disso, ela está sempre se comparando com o padrão que, inevitavelmente, vemos na TV, nos filmes, nos livros, nas revistas, nas vitrines das lojas. Isso traz vulnerabilidade e também vale para as crianças. Porque, se a comida faz parte do ritual de compensação de autoestima, por exemplo, então a criança está numa situação muito vulnerável. A tendência é: toda vez que ela tiver pensamentos negativos sobre si mesma aparecendo no seu dia a dia, muito provavelmente, ela vai usar a comida para confortar isso. É esse ciclo vicioso, esse ciclo de impulsividade, que a gente tem que tomar consciência e aprender a responder a ele de forma diferente, alternativa e saudável.

 

 OIN – Por que e como o sofrimento pode aparecer na vida da criança obesa?

 

 FRIARY – O que sabemos hoje é que o elemento da impulsividade é central na perpetuação dos problemas alimentares: alimentação compulsiva, bulimia, anorexia e outros transtornos. A obesidade costuma ser acompanhada de situações como: comer sem respeitar a quantidade de que precisa; comer além da conta sem identificar o momento em que você está saciado; comer de forma impulsiva. Então, a criança começa a perceber que não tem controle sobre a comida e isso pode passar muito despercebido pelas famílias, que podem não estar tão preocupadas com a alimentação dos filhos. A preocupação aparece quando a criança apresenta complicações que a levam ao consultório médico, como diabetes. Ou, então, quando ela começa a exibir sintomas de depressão advindos de bullying na escola, por exemplo, o que é muito comum. A questão da autoimagem negativa também pode acarretar sintomas depressivos. É nesse momento que os pais costumam buscar ajuda.

 

 OIN – O que pais, mães e responsáveis podem fazer?

 

FRIARY – O envolvimento da família é fundamental. As crianças precisam dos pais para entenderem o que está acontecendo com elas. Pais e mães precisam oferecer algum tipo de educação, de estratégias psicoeducativas, como chama a psicoterapia. Profissionais de saúde estão mais preparados para fazerem esse tipo de ensinamento, mas a família precisa tomar consciência de que a comida pode estar sendo usada para conforto emocional e deve conversar com a criança no sentido de reforçar a importância da sua autoaceitação, de ser generosa consigo mesma, de cuidar do seu corpo, das suas emoções. Também é importante que conversem sobre o que é ter sucesso, o que são os “padrões de beleza”, no sentido de desconstruir o que veem na televisão, nas propagandas. São os pais que devem ensinar os filhos e as filhas a se aceitarem, a terem autocompaixão. Isso pode ser muito curativo e é fundamental para a criança. Ela precisa perceber que tem 100% do amparo dos pais, para que se sintam amadas e compreendidas por eles. Outra orientação é trabalhar em colaboração com os profissionais de saúde para o acompanhamento dos protocolos adequados para o tratamento da obesidade infantil.

 

 OIN – Na área da psicologia, que tratamentos podem ser indicados?

 

FRIARY – Tratamentos relacionados ao controle da impulsividade, como o mindfulness (atenção plena), a meditação e as terapias comportamentais cognitivas em geral, como a terapia dialética comportamental e a terapia cognitiva comportamental.

 

Mindfulness(atenção plena) – É uma das melhores escolhas para o tratamento da obesidade na infância, pois trabalhamos justamente com o manejo da atenção, da impulsividade e das emoções. Um exemplo de exercício é a atividade “Descobrindo os sabores da comida”: pedimos que a criança pegue uma fruta com as mãos e que a coma devagar, olhando essa fruta, sentindo o seu cheiro e a sua forma, enquanto relata a experiência. A alimentação deixa de ser automática e passa a ser mais consciente, mais agradável; criamos uma nova relação com o alimento. Eu acho que os pais podem levar isso para dentro de casa, ensinando as crianças a desenvolverem essa nova relação com os alimentos.

 

Meditação – Ajuda a reduzir a impulsividade, contribuindo para modificar a relação que se tem com a comida. Também pode ser uma forma alternativa de lidar com as emoções negativas.

 

Terapia dialética comportamental – Trabalha a questão da aceitação das emoções. Ensina os pacientes a aceitarem os diferentes estados emocionais que vão surgindo e a aumentarem a sua tolerância pelo desconforto que aparecem nas relações humanas e nas situações que vivem. Quando as pessoas aceitam o que sentem e conseguem realizar ações de significado, há melhora na qualidade de vida, porque se aceitam mais. Ajuda no manejo da impulsividade e das emoções de forma sistemática.

 

Terapia cognitiva comportamental – É centrada no seguinte pensamento: não são as situações que ocorrem comigo que me fazem mal, é a maneira como eu penso sobre elas. O objetivo é ajudar as pessoas a identificarem essas formas de pensar, que, muitas vezes, são distorcidas, além de desenvolverem formas mais adaptativas de pensar sobre a vida, sobre si mesmas e sobre as suas relações. Novos padrões de pensamento que colaborem para o maior equilíbrio emocional são formulados. Isso tende a ajudar as pessoas a terem uma vida e uma saúde emocional mais harmoniosa e positiva. O comportamento se torna mais adaptativo e flexível: no caso das crianças, na escola, com os colegas e com a família. A ideia é mudar os padrões de pensamentos que as pessoas têm sobre si mesmas, sobre suas relações e os acontecimentos da vida.