Quando cursava faculdade de nutrição em Belo Horizonte, Maria Amélia de Alvarenga Drummond escreveu o livro “Poesia, alimento e fantasia”, no qual fala às crianças sobre a importância dos alimentos. Já formada, teve 12 poemas rimados dessa obra musicalizados no CD infantil “O Mundo mágico dos alimentos”, que ganhou, em 2016, uma versão com três volumes e ilustrações de Michelle Martins. A partir desse projeto, de suas pesquisas em nutrição infantil e de sua experiência no atendimento a crianças e adolescentes, desenvolveu um método criativo e lúdico para ensinar alimentação saudável a esse público. Além disso, inaugurou a Nutri Chef’s, em Ipatinga (MG), uma escola que proporciona aulas de nutrição e culinária para meninos e meninas, a partir dos 4 anos de idade, e cursos para adultos. Na entrevista a seguir, ela revela como faz para as crianças aprenderem bons hábitos alimentares.

 

OIN – Por que a qualidade da alimentação das crianças vem piorando?

Maria Amélia de Alvarenga Drummond – O principal fator é a falta de tempo dos pais para cuidar da alimentação dos filhos. Às vezes, o problema começa ainda na fase de aleitamento no peito, quando, por diferentes motivos, as mães interrompem a amamentação e iniciam precocemente a alimentação complementar, e nem sempre de forma correta. Para lidar com o pouco tempo, muitos pais oferecem às crianças produtos industrializados, com alto teor de açúcar (carboidratos), gorduras, sódio e aditivos. Assim, desde os primeiros anos, o paladar é moldado para sabores artificiais. E as crianças só querem comer o que vem na caixinha, na embalagem. Outro fator é a terceirização da educação dos filhos, não só a de base, mas nutricional. Hoje, as crianças passam boa parte do dia ao cuidado da escola, de babás e avós. E ficam sem saber o que devem seguir no que diz respeito à própria alimentação. Na escola é de um jeito, em casa é de outro, com a babá ou avó também é diferente. E, para agravar o problema, estão mais sedentárias.

 

OIN – A fase da alimentação complementar é decisiva para desenvolver hábitos alimentares saudáveis?

Maria Amélia – Quando a mãe inicia a nutrição complementar, é a fase em que a criança passa a provar sabores e cheiros dos alimentos. E começa a formar um vínculo afetivo com os alimentos ou não. Por isso, deve-se permitir à criança explorar, experimentar. Muitas vezes, ela vai cuspir algo que comeu porque ainda está conhecendo o alimento. Se isso acontecer, os pais ou cuidadores devem oferecer novamente o alimento, em diferente momento, em outro tipo de preparação, mas sem forçar, sem obrigar a criança a comer.

 

OIN – Uma queixa comum dos pais é dizer que a criança não come. Em geral, eles têm dificuldade em perceber quando o filho está saciado?

Maria Amélia – As crianças têm o centro da saciedade bem controlado. Vejo que crianças que se alimentam bem são saudáveis, ativas e, mesmo assim, as mães acham que a criança comeu pouco. Mais importante que a quantidade é a qualidade do alimento que ela consome. Outra situação é quando a criança é magrinha, mas come muita besteira e corre o risco de sofrer doenças como diabetes, hipertensão, dislipidemias.

 

OIN – Como vencer a birra da criança na hora de comer?

Maria Amélia – Há vários motivos que levam uma criança a não querer se alimentar. Às vezes, pouco antes da hora do almoço, ela comeu algo calórico, como um biscoito; não está com fome e não vai querer arroz, feijão, legumes, carninha. Os pais precisam criar rotinas e regrinhas para a alimentação da criança, mas também aprender a negociar com ela. Caso contrário, ficará cada vez mais seletiva. Por exemplo, quais legumes ela quer comer primeiro, quais dias da semana ela se compromete a consumir mais frutas. É preciso avaliar também o contexto da birra. Pode ser apenas para ter mais atenção. Desde que nasce, ela aprende que, quando não come, seus pais param tudo para ficar com ela.

 

OIN – Na correria do dia a dia, como organizar um cardápio nutritivo e atraente ao paladar da criança?

Maria Amélia – A simplicidade é uma boa aliada da falta de tempo. Geralmente, o trivial é prático e saudável. Descascar uma banana é mais fácil e rápido que abrir um pacote de biscoito industrializado, por exemplo. Cortar e espremer um limão, uma laranja, é mais nutritivo que usar a caixa de suco de fábrica. Colocar um ovo cozido na lancheira também é simples de fazer. É preciso ser criativo na educação nutricional, que começa nos primeiros anos. Vejo crianças com o paladar tão adaptado aos sabores artificiais que não aceitam, estranham e têm medo de comer algo natural. Quando os filhos percebem que os pais têm hábitos alimentares saudáveis, naturalmente a tendência é seguirem o mesmo comportamento.

 

OIN – Este ano as escolas têm que incluir educação nutricional de forma transversal na grade curricular. O que acha dessa decisão

Maria Amélia – É um avanço, mas as escolas não podem ensinar apenas teoria. O desafio será conciliar o conteúdo aprendido com a prática. Muitas vezes, a criança recebe informação sobre alimentação saudável em sala de aula e na hora do recreio não vê na cantina nada do que aprendeu como certo.

 

OIN – Em que consiste o método do Nutri Chef’s?

Maria Amélia – Nosso compromisso é formar crianças conscientes, com saúde, sem medo de experimentar sabores naturais. Ensinamos nutrição e culinária como se elas estivessem na escola. Nas duas horas de aulas, elas aprendem de forma divertida, com brincadeiras, arte, através de colagens, reciclagens, carimbos, dinâmicas, fantoches, teatro, poesias, músicas, mascotes e personagens. Conhecem sabores naturais, vivenciam texturas, plantam e associam comer de forma saudável a algo legal, bom. É um método baseado no reforço positivo, na pedagogia e na psicologia infantil. E temos alunos com diferentes características: meninos e meninas apenas interessados em nutrição e culinária; outros com necessidades especiais; temos alunos indicados por psicólogos; crianças com dificuldade de provar novos sabores. Ensinamos a eles o quanto é importante cuidar da alimentação para ter boa saúde.

Para saber mais sobre a Nutri Chef’s, assista ao vídeo: <https://youtu.be/VD2AUDhvfnk> ou acesse o site: <http://www.nutrichefs.com.br/index.asp>.