Desde o início deste ano, escolas públicas e particulares ganharam um aliado no assunto comer de forma saudável: o projeto Alimentação Consciente. Acompanhe a entrevista com a nutricionista Cynthia Howlett, sócia da Realimentare, empresa de consultoria para escolas, responsável pela iniciativa.

 

OIN – O que é o Alimentação Consciente?

 

CYNTHIA HOWLETT – É um projeto que vai além da elaboração de cardápios e controle dos itens da cantina. A proposta é buscar ferramentas e materiais para que o tema da alimentação seja abordado em sala de aula, de acordo com a idade da criança. E também trabalha com as nutricionistas da escola e os demais funcionários. Em paralelo ao trabalho em escolas privadas, fui procurada por escolas públicas, onde atendo voluntariamente. Ofereço palestras aos pais sobre a importância da comida em casa; o que evitar; de que forma diminuir o açúcar e os produtos industrializados; dicas de receitas práticas e baratas. Em sala de aula, com as crianças, fazemos oficinas de pão de queijo, pão de aipim, pão de inhame, as crianças me ajudam a fazer biscoito de polvilho. Eu gostaria de atender mais às escolas da rede pública, porém, ainda não tenho essa disponibilidade, infelizmente. Eu não queria fazer atividades pontuais, pois acabamos ficando sem um projeto de verdade. Então, estou tentando reunir forças e ferramentas com as escolas privadas, onde há lucro e consigo investimentos, para poder desenvolver um projeto que, depois, eu possa replicar na escola pública. O que queremos mesmo é criar uma plataforma de material didático e pedagógico para as escolas públicas e privadas, com material lúdico e didático. Essa ideia está na primeira etapa de desenvolvimento.

 

OIN – Como funciona?

 

CYNTHIA – Cada escola tem uma demanda, uma questão, e, de acordo com o que ouvimos e com as necessidades da instituição, montamos um projeto para atender essa escola (e um orçamento, para as particulares). Desenvolvemos ferramentas para ajudar as nutricionistas que trabalham lá, empresas de alimentação, professores. Então, varia muito, de acordo com o que a escola pede, precisa e quer. Não é um projeto fechado, mas flexível e adaptável à realidade de cada escola. Tem palestra para pais e mães, funcionários, diretores, crianças. Os temas variam conforme o público. Para os pais, apresentamos o projeto que está sendo implantado na escola e abordamos as dificuldades cotidianas. Para as crianças, depende da idade, temos vários temas, desde o alimento em si e a importância de montar um prato ideal, até palestras de transtornos alimentares para os maiores.

 

OIN – Quais as maiores dificuldades que os pais enfrentam na alimentação escolar?

 

CYNTHIA – Primeiro, a questão dos lanches. Açúcar e produtos industrializados acabam sendo a opção rápida e prática como lanche escolar. Pais e mães não conseguem, não sabem montar um lanche que seja prático, rápido e saudável. Esse é o grande problema. Além disso, a forma de educar também é um fator: precisamos de um tempo que não temos mais para falar sobre o alimento e questionar a criança. Acaba sendo tudo muito rápido: isso pode versus isso não pode e isso faz bem versus isso faz mal. Só que existe uma questão de hábito e cultura desenvolvidos desde cedo e são os pais que devem dar o exemplo. Muitas vezes, eles querem coisas que eles mesmos não fazem.

 

OIN – Como contornar esses problemas?

 

CYNTHIA – É preciso saber compor um bom lanche. Em vez dos produtos industrializados – cheios de gordura, açúcar e corante – e do pão, sempre há muito carboidrato, pode ter um ovo cozido, de codorna, um pedaço de queijo, um iogurte. Os pais vão sempre no biscoito e no pão, mas poderiam incluir um pepino cortado, uma cenoura baby. Precisam entender que também é possível incluir legumes no lanche.

 

OIN – Qual é o maior desafio para a alimentação consciente?

 

CYNTHIA – Conscientizar o aluno para que tenha uma escolha própria e não por imposição. Isso não funciona para as crianças. O desafio é questionar o aluno dentro de sala de aula e o que ele está comendo. Levar o refresco de guaraná industrializado para ser descoberto na aula de ciências. Como é composto? Falar sobre o alimento de uma forma mais contundente e afetiva também contribui. Dentro da sala de aula é possível perguntar: como faz um embutido? É isso mesmo que vocês querem comer? Ou seja, isso tem que ser mais falado. As crianças têm que estar mais próximas do alimento, com oficinas. Acho que este é o maior desafio: conscientizar o aluno para que ele possa escolher. Não adianta criar a criança em uma bolha e mudar toda uma cantina para que ela seja totalmente saudável; se não existe escolha do aluno nesse sentido, não funciona. Então, acho que devemos partir do equilíbrio e questionar o aluno.

 

Para saber mais sobre o projeto, acesse o site: <http://www.cynthiahowlett.com/>.