Nosso mundo é cheio de facilidades: abra a lata e faça uma refeição completa; feche o pote plástico e seu alimento ficará conservado por dias; aperte a embalagem plástica e aproveite o seu cosmético por meses. Será que essas práticas tão recorrentes não têm contraindicações? Essa pergunta está rondando o trabalho de instituições como a Academia Americana de Pediatria e a Universidade de São Paulo (USP). Isso porque, segundo estudos, substâncias químicas, chamadas disruptores (desreguladores), encontradas em diversos produtos e até mesmo em alimentos, podem causar danos ao sistema endócrino.

 

E as crianças estão em risco. Pesquisa recente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (da USP), publicada na revista científica “Environmental International”, indicou que as crianças brasileiras estão expostas a níveis altos de parabenos e benzofenonas, duas classes de disruptores endócrinos (um tipo de molécula que não ocorre de forma natural no organismo e que pode alterar o equilíbrio hormonal), presentes em cosméticos e produtos de cuidado pessoal. No estudo, os pesquisadores analisaram amostras de urina de 300 crianças entre 6 e 14 anos, coletadas em 2012 e 2013, nas cinco regiões do Brasil. Conversamos com o cientista Bruno Alves Rocha, um dos autores do estudo, para saber mais sobre esse tema.

 

OIN – O que são disruptores endócrinos e por que fazem mal?

 
BRUNO ALVES ROCHA
– São substâncias químicas capazes de interferir na síntese, na secreção, no transporte, na ligação ou na eliminação dos hormônios naturais do corpo humano, que são responsáveis pela manutenção da homeostase (o equilíbrio do organismo), reprodução, desenvolvimento e/ou comportamento. Em termos gerais, isso significa que são compostos químicos que interferem nas nossas funções hormonais normais. Essas substâncias podem ser encontradas em concentrações muito baixas nos mais diversos ambientes. No entanto, mesmo em baixas concentrações, são suficientes para provocar uma variedade de efeitos adversos à saúde, com danos no sistema reprodutor, comprometimento do desenvolvimento e câncer. Além disso, os disruptores endócrinos contribuem para a progressão de algumas doenças metabólicas, incluindo obesidade, diabetes e endometriose.

 

OIN – Onde encontramos essas substâncias?

 

BRUNO – Em materiais de limpeza, tintas, carnes processadas, leite e derivados em contato com embalagens e tubos plásticos (os ftalatos). Em alimentos enlatados e bebidas em garrafas de policarbonato (o bisfenol). Em cosméticos, produtos de higiene e papéis (higiênicos, panfletos, jornais) e alimentos processados (parabenos).

 

OIN – Crianças e bebês podem ser ainda mais prejudicados por essa exposição?

 

BRUNO – Os períodos de maior vulnerabilidade do nosso organismo são a gestação, a infância e a adolescência, pois são marcados por aceleradas modificações em órgãos e sistemas. Tanto a exposição a disruptores endócrinos nesses períodos quanto a exposição prolongada ao longo da vida estão relacionadas às várias doenças secundárias à interferência hormonal. O grupo mais sensível aos efeitos dos disruptores endócrinos são as crianças, além das gestantes. As crianças estão mais expostas devido ao menor peso corporal quando comparadas aos adultos. Além disso, inalam quatro vezes mais ar, consomem entre seis a oito vezes mais calorias e bebem quatorze vezes mais água por quilo do que um adulto médio. Essas diferenças resultam em crianças expostas a uma maior carga de produtos químicos tóxicos através do ar, água e comida.

 

OIN – Qual a relação entre a exposição aos disruptores endócrinos e a obesidade infantil?

 

BRUNO – A exposição humana aos disruptores endócrinos vem sendo relatada em paralelo com a crescente epidemia de obesidade. Durante os períodos críticos do desenvolvimento perinatal (imediatamente antes e depois do parto), essa exposição pode modificar o desenvolvimento das células e tecidos, o que pode levar ao aumento da suscetibilidade a distúrbios metabólicos e hormonais mais tarde na vida. Além disso, os estágios da infância e adolescência são marcados pelo amadurecimento constante dos principais sistemas hormonais, então, são mais suscetíveis a exposições químicas. Portanto, é possível que a obesidade infantil, nos últimos anos, esteja associada ao aumento da exposição a uma variedade de disruptores.

 

O que fazer para proteger sua família?

 

– Evite o consumo de alimentos enlatados.

 

– Reduza, o máximo possível, os alimentos processados de sua alimentação, em especial os classificados como fast food – mesmo em pequenas quantidades, eles elevam grandemente os níveis de ftalatos.

 

– Evite o uso de garrafas plásticas para armazenamento de bebidas, prefira o vidro ou o aço.

 

– Evite a utilização de recipientes plásticos para armazenamento de alimentos.

 

– Evite aquecer alimentos em recipientes plásticos.

 

– Evite o contato da pele com papel térmico de recibos de caixas, bancos e máquinas de cartão de crédito, ingressos de cinema etc.

 

– Reduza a exposição, em especial de crianças e gestantes, aos cosméticos em geral (perfumes, sombra para olhos, cremes hidratantes, esmaltes para unha, sabonete líquido, spray fixador de cabelo, xampus, condicionadores, lenços umedecidos). Dê preferência a produtos de higiene sem parabenos e sem ftalatos.

 

– Evite o contato de crianças com pisos de PVC, brinquedos plásticos e massa de modelar.

 

–– Protetores solares: dê preferência aos métodos de barreira, como vestimentas e chapéus; limite os horários de exposição e verifique o índice de radiação UV do dia. Ao selecionar o tipo de protetor solar, evite os tipos em spray (devido à inalação) e prefira os produtos à base de minerais (óxido de zinco e dióxido de titânio), sem vitamina A.

 

– No caso de moradia recém-construída ou mobiliada – se for possível, aguarde o período para biodegradação, fotodegradação, degradação anaeróbica dos ftalatos presentes nas tintas e móveis antes de ocupar o imóvel.

– Restaurações dentárias: se possível, opte por resinas e selantes sem bisfenóis.

 

Como identificar os produtos livres desses compostos?

 

Existem alternativas que não utilizam essas substâncias em seus produtos. Geralmente, são descritas nas embalagens como isentos das substâncias causadoras da disrupção. Produtos chamados “Free”, por exemplo: “BFA-Free”, que é isento de bisfenol A.

 

Fontes:< http://www.abeso.org.br/noticia/academia-americana-de-pediatria-aap-mostra-preocupacao-com-disruptores-endocrino>;

 <https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/criancas-brasileiras-estao-expostas-a-moleculas-que-mudam-equilibrio-hormonal/>.