São Silvestrinha, Kids Run, Disney Magic Run, Track & Field Run Series Kids, Corrida Cartoon... Um número cada vez maior de crianças no Brasil e no exterior tem participado de corridas de rua, percorrendo distâncias de 50 metros a 3 quilômetros, dependendo da faixa etária. Para as menores, os circuitos são recreativos, uma grande brincadeira em família. Contudo, os maiores já levam a sério as provas. Quais os cuidados que os pais devem ter? O pediatra Ricardo do Rêgo Barros, do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (UFRJ) e especialista em Medicina Desportiva, e o médico Cláudio Gil Araújo, pós-doutorado em Fisiologia e Medicina do Exercício na McMaster University e diretor da Clinimex – Medicina do Exercício –, respondem a esse e a outros questionamentos a seguir.

 

Idade mínima para correr: o pediatra Ricardo Barros diz que não existe restrição à participação lúdica, recreativa em corridas de rua. Após os 5 anos, a criança começa a compreender a atividade física como diversão, mas idealmente seria aos 10 anos, quando já desenvolveu diversas habilidades, como concentração, equilíbrio etc.

Benefícios: a corrida, como qualquer atividade física, contribui para afastar as crianças da vida sedentária, especialmente nos dias de hoje, quando elas têm acesso a diversos dispositivos eletrônicos. Se o seu filho gosta de praticar atividade física na infância, provavelmente manterá esse hábito na adolescência e na fase adulta.

Sem forçar a barra: a decisão de participar de circuitos de rua deve partir da criança, não uma imposição dos pais. A criança deve ter a oportunidade de experimentar diferentes esportes, comenta Cláudio Gil. Não insista para que ela inicie uma modalidade apenas porque você gosta e acredita que ela será o próximo Usain Bolt. Ela poderá perder o interesse em praticar qualquer atividade física, pois verá o exercício ou esporte como uma obrigação. A criança tem de estar a fim de fazer. E sem necessidade de competir. O ideal é que todas sejam premiadas ao final dos circuitos.

Cuidados ao correr: da mesma forma que os adultos, as crianças e os adolescentes que participam de circuitos de rua, ainda que de forma recreativa, precisam estar bem hidratados e utilizar um vestuário apropriado. Devem usar roupas leves e tênis normais. As crianças não devem correr em jejum. Fique atento em relação ao que elas podem comer, antes e depois das corridas. Cuidado também com as provas realizadas sob forte calor ou em baixas temperaturas. Barros recomenda hidratar a criança com água mineral nos primeiros instantes da corrida e depois com repositores hidroeletrolíticos, sempre sob a orientação do pediatra.  Além de incentivar o gosto pelo esporte desde cedo, a corrida oferece benefícios à saúde das crianças, como ajuda na prevenção e combate à obesidade infantil. No entanto, é necessário tomar alguns cuidados e seguir algumas orientações para que essa prática esportiva não prejudique o seu desenvolvimento normal da criança. Portanto, é fundamental que o seu filho seja orientado por um professor de educação física e acompanhada por um pediatra.

Um passo de cada vez: mesmo que a criança goste muito de correr, isso não significa que ela será um atleta de maratona quando adulto. Não há evidências científicas de que os corredores de longa distância devem começar a treinar ainda nos primeiros anos de vida para atingir o seu maior potencial ou se tornar um atleta de alto desempenho. Embora muitas crianças tenham naturalmente altos níveis de aptidão aeróbia, tornando-as fisiologicamente aptas para atividades de resistência de baixa intensidade, elas são limitadas em sua capacidade de gerar energia para atividades de alta intensidade. Jovens fisicamente imaturos, que realizam altos volumes de treinamento intenso, têm um risco relativamente alto de sofrer lesões, problemas de crescimento e estresse psicológico. Levando em consideração esses pontos, recomenda-se que as crianças não iniciem treinamento regular e especializado para corridas de longa distância, pelo menos até o início da puberdade, em torno de 11 a 13 anos. Isso não significa que os pequenos com menos de 11 anos estão proibidos de participar de eventos, como corridas de dois ou três quilômetros de forma recreativa, por diversão, para prevenção de doenças e melhora da saúde. O que não é recomendado é o treino especializado e regular para corridas (mais de três dias por semana durante períodos de vários meses).

Exercício na dose certa: o importante mesmo é a criança praticar algum tipo de atividade física diariamente. A Sociedade Canadense de Fisiologia do Exercício, por exemplo, recomenda que, para ter mais benefícios à saúde, as crianças de 5 a 11 anos de idade devem acumular, pelo menos, 60 minutos de atividade física de intensidade moderada (nas quais suam um pouco e respiram com um pouco mais de dificuldade) a vigorosa cotidianamente. Vale: andar de bicicleta, correr no recreio, nadar, andar de skate ou patins etc.. Praticar, especialmente, exercícios que fortalecem os músculos e os ossos, pelo menos três dias por semana.

 

Outras fontes: “Human Kinetics – Training Young Distance Runners-3rd Edition” Larry Greene, Russell Pate. E Sociedade Canadense de Fisiologia do Exercício A Sociedade Canadense de Fisiologia do Exercício (CSEP, na sigla em inglês).