Evitar a obesidade infantil implica ter hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida. E, de acordo com especialistas, uma aliada é a prática de meditação já na infância. “Essa técnica aumenta a concentração e reduz a ansiedade e o estresse nas crianças, fatores que funcionam como gatilhos para comer além do necessário”, afirma o psicólogo Vitor Friary, responsável técnico pelo Projeto de Terapia Cognitiva baseada em Mindfulness (atenção plena) para Crianças na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.

 

Friary explica que as técnicas de meditação aplicadas em crianças são bem diferentes das utilizadas em adultos. Na infância, a meditação é baseada em contos de histórias, canções, leitura de poemas, jogos e brincadeiras e exercícios que exploram os cinco sentidos e treino da atenção. A duração da prática também é diferente do adulto. “Para cada ano de vida, a criança medita um minuto. Por exemplo, se tem cinco anos de idade, então o máximo que ela faz são cinco minutos”, diz o psicólogo, autor do livro “Mindfulness para crianças – Estratégias da terapia cognitiva baseada em mindfulness” (editora Sinopsys).

A técnica que Friary usa em crianças é adaptada do programa para adultos oferecido pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, desenvolvida inicialmente por Jenniffer Lee e Randye Semple. “O objetivo é promover um aumento do controle atencional e da inteligência emocional. E auxiliar as crianças a lidarem com situações difíceis de uma maneira diferente, para que elas possam aprender a perceber suas sensações, sentimentos e pensamentos através de uma perspectiva mais aberta, gentil e suave”, declara Friary.

A partir dos dois ou três anos de idade já é possível inserir os exercícios na rotina da criança que, no começo, deve contar com pais e terapeutas como facilitadores, que devem orientá-la de forma lúdica e divertida. “As crianças mais crescidinhas, que já estão conquistando certos níveis de autonomia, acabam conseguindo com o tempo praticar por conta própria”, esclarece Friary. Ele diz que o hábito se constrói com a rotina e que, sobretudo no início do contato com a técnica, é importante praticar um pouquinho a cada dia, todos os dias. “Muitas escolas já adotam a prática como parte da rotina. Pesquisas com grupos que meditam mostraram que a prática aumenta a sensação de bem-estar, o foco, a concentração e reduz os sintomas de problemas como transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)”, revela. 

Segundo Friary, pesquisas indicam que pessoas que meditam desde cedo tendem a apresentar maior nível de escolaridade e menor risco de usar drogas, inclusive álcool, na fase adulta. “Um estudo publicado na revista científica “Infant Behaviorand Development” demonstrou que a gestante que pratica a meditação aumenta sua chance de gerar um bebê mais saudável”, conclui.

 

Exemplo de exercício proposto no livro “Mindfulness para crianças – Estratégias da terapia cognitiva baseada em mindfulness” 

Escutando as batidas do coração

Neste exercício, peça para a criança pular repetidamente por 1 minuto. Após isso, você irá convidá-la a se sentar. 

A seguir, instrua-a da seguinte maneira: vamos nos sentar agora e você vai colocar suas mãozinhas bem junto do seu coração.

Feche seus olhinhos agora e sinta seu coração bater: tum tum, tum tum (pausa longa). Perceba como isso acontece. Veja o que mais você consegue perceber (longa pausa).

O livro tem outros exercícios práticos que podem ser acompanhados com o áudio que está no CD. Converse com seu pediatra a respeito do assunto!