De acordo com o Ministério da Educação, cabe ao professor de educação física trabalhar com as habilidades cognitivas das crianças, o equilíbrio, a disciplina e a concentração. Entretanto, a educação física tem uma função que vai além do desenvolvimento técnico em determinados esportes. Conforme os “Parâmetros Curriculares Nacionais”, essa disciplina deve incorporar as dimensões afetivas, cognitivas e socioculturais dos alunos. Mas será que essa prática esportiva vem cumprindo corretamente o seu papel nas escolas? Jovens e adolescentes vêm exercitando o necessário no dia a dia? E os pais dão o devido valor às atividades físicas e acompanham o desenvolvimento desse trabalho nas escolas brasileiras? O professor de educação física, com pós-graduação em nutrição pela USP, Marcio Atalla concedeu uma entrevista exclusiva ao portal OIN sobre o tema.

OIN – A disciplina educação física não parece gerar muito interesse entre crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e Médio. Por que isso ocorre? Sempre foi assim?

Marcio Atalla – Não acredito que tenha sido sempre assim. Acho que atualmente as aulas são mal planejadas, deixadas em segundo plano. Com certeza, ela poderia ser bem mais atrativa que uma aula de matemática, geografia, ciências. O fato é ela voltar a ser valorizada dentro da grade de aulas.

OIN – As escolas deveriam ter um papel no desenvolvimento físico das crianças e adolescentes?

Atalla – Sim. Deveriam ter participação no desenvolvimento físico da criança. Devem despertar na criança a vontade de se exercitar, de descobrir quais são suas habilidades, além de educar no sentido da construção de saúde para toda a vida.

OIN – O que os pais devem exigir da escola com relação à disciplina educação física?

Atalla – Primeiro, os pais devem exigir que as aulas aconteçam realmente. Também devem cobrar da escola e do professor uma programação, e que a escola participe de competições entre escolas ou organize eventos esportivos dentro do seu próprio ambiente.

OIN – O que as escolas fazem ou deveriam fazer para incentivar os alunos a tomar gosto pela disciplina educação física e atividade física em geral?

Atalla – Fica realmente difícil se consideramos que 60% das escolas não têm espaço para a prática esportiva. As escolas preferiram construir mais salas, o que só dificultou ainda mais o interesse por parte das crianças, a vontade dos professores e as possibilidades devido ao espaço físico limitado. O que é preciso fazer? Pensar na estrutura, em primeiro lugar.

OIN – A educação física deve ser uma disciplina que mescle a cultura do esporte, diversão, atividade de alto rendimento e integração, em que todos brinquem sem se preocupar com quem ganha? É possível mesclar tudo isso?

Atalla – Eu considero que a importância da prática esportiva inclui justamente o fato de as crianças terem que competir e, para tal, elas precisam aprender a competir, e a lidar com derrotas e vitórias. E isso serve para todos os âmbitos de nossas vidas, em todas as fases. Mas certamente que não será da escola a função de fazer treinos de alto rendimento. Isso é totalmente à parte. O importante é que desenvolva habilidades, coordenação motora, gosto pelo exercício ou modalidade esportiva, aspectos cognitivos etc.

OIN – Existe uma rejeição maior pela disciplina por parte dos adolescentes? O que poderia ser feito para mudar isso? A inclusão de esportes alternativos ou radicais, como skate, já é pensadaAtalla – Eu não sei dizer se a rejeição é maior pelos adolescentes, mas acho que isso já pode ser sim uma consequência desse descaso que as aulas têm dentro da carga horária escolar. O desinteresse vai apenas crescendo. Acho que incluir novas modalidades pode ser uma estratégia, até mesmo em espaços fora da escola, se possível.

OIN – Falta uma proposta pedagógica coerente que mostre a importância da educação física como suporte para a qualidade de vida?

Atalla – Sem dúvida existe essa carência. Dentro da programação das aulas de educação física, falta educar de fato. Falar sobre doenças que podem ser prevenidas com exercício físico, mostrar a importância de um estilo de vida saudável, a necessidade de uma alimentação equilibrada, ou seja, ensinar desde pequeno a ter respeito e a cuidar do próprio corpo e saúde.

OIN – No Brasil, pode ser considerado que essa área é bem trabalhada nas escolas ou ainda há muito que fazer?

Atalla – Ainda há muito que fazer. Estamos muitíssimo longe de ter isso bem trabalhado. Infelizmente, no Brasil, 78% das crianças brasileiras não brincam com movimento por uma hora por dia. Esse é o mínimo considerado aceitável pela Organização Mundial da Saúde.

OIN – Como esse tipo de disciplina é enxergado em outros países? Em quais é dado maior destaque a essas atividades? Como esse trabalho é feito nas escolas de lá?             

Atalla – Em outros países, a disciplina é trabalhada de forma bem diferente ao que estamos acostumados aqui no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, o esporte define quem terá bolsa de estudo nas universidades. Em Cuba, o peso do esporte também é bem importante. Já na Finlândia, houve aumento significativo da carga horária das aulas de educação física. Lá ainda há movimento em todas as outras matérias, a fim de melhorar a concentração, aprendizado e cognição dos alunos.

OIN – E qual sua sugestão para a melhora desse cenário?

Atalla – Precisamos de uma política de saúde pública. Acho que o primeiro passo é dar infraestrutura para as escolas terem espaço para se movimentar, brincar com movimento. Dar materiais para que os professores possam desenvolver melhor suas aulas. Na lista deve ter também uma abordagem pedagógica valorizando o exercício físico, aumento na quantidade da carga horária. E, por fim, saber que as aulas de educação física, comprovadamente, vão ajudar no aprendizado dos alunos. A oxigenação que acontece no cérebro por conta do movimento, do exercício físico, ajuda na produção de novos neurônios, na cognição, memória e concentração.