A alimentação no primeiro ano de vida do bebê é um dos temas mais discutidos entre pais e pediatras em consultas médicas, gerando uma série de dúvidas e até distorções. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a melhor opção alimentar para crianças de zero a seis meses de idade é o aleitamento materno exclusivo. No entanto, a partir do segundo semestre de vida, passa a ser indispensável adicionar alimentos complementares ao leite materno para satisfazer às suas necessidades nutricionais e ainda proporcionar a apresentação de outros sabores e texturas.

Conversamos com a pediatra Monica de Araújo Moretzsohn, especialista em nutrologia e da Sociedade Brasileira de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj). Ela alerta para os riscos de não respeitar o apetite do bebê e iniciar o processo de forma precoce ou tardia. Esse tipo de equívoco pode despertar uma relação de desprazer da criança com a comida, trazendo sérios riscos futuros.

 

OIN – Quando deve ser iniciada a alimentação complementar e de que forma?

Monica Moretzsohn - A alimentação complementar deve ser iniciada, idealmente, a partir do sexto mês de vida, e o bebê deve continuar em aleitamento materno até dois anos ou mais a partir desta introdução. O início deve ser gradual, com papa de frutas duas vezes ao dia e uma papa com legumes, verduras, cereais e proteína, sob a forma de purê.

 

OIN – Quais alimentos devem ser oferecidos inicialmente? Como deve ser feita essa apresentação?

Monica - Todas as frutas podem ser oferecidas: amassadas, raspadas, cruas ou cozidas. A papa deve conter um tubérculo ou cereal (batatas, inhame, mandioca, arroz ou macarrão); uma proteína animal (carne bovina, frango, ovo, peixe, vísceras); uma leguminosa (feijões, ervilha, lentilha ou grão-de-bico); legumes e verduras. Recomenda-se não adicionar sal. Porém, temperos não industrializados, como alho e cebola, assim como qualquer óleo vegetal, como o de soja, canola, milho, girassol ou azeite, podem ser utilizados no preparo. É fundamental iniciar com um alimento de cada grupo, acrescentando novos itens aos poucos.

 

OIN O suco de frutas, como, por exemplo, laranja-lima, deve fazer parte do cardápio da alimentação complementar?

Monica - Os sucos devem ser evitados no primeiro ano de vida, dando preferência às frutas in natura, amassadas ou raspadas. Após o primeiro ano, o suco de frutas in natura pode ser oferecido até 120 ml (até três anos) sem adição de açúcar.

 

OIN – Como deve ser o tempero da papinha salgada?

Monica - Nunca utilizar tempero industrializado. Já os naturais, como cebola alho, salsa, cebolinha, coentro, entre outros, estão liberados. O sal só deve ser introduzido na alimentação após um ano de idade, quando a criança deverá comer a mesma alimentação da família.

 

OIN – A consistência dos alimentos tem importância no desenvolvimento da musculatura facial?

Monica - Sim. Aos seis meses, as papas devem ter uma consistência firme, sob a forma de purê; em torno dos seis e sete meses, os alimentos devem ser amassados com garfo, com pequenos pedaços; a partir dos nove meses, a papa começa a mudar de textura, sendo menos amassada e mais picada. É importante não bater a papa no liquidificador. Nessa textura não há estímulo ao desenvolvimento da musculatura facial.

 

OIN – Quais os principais erros dos pais e cuidadores no processo de alimentação complementar?

Monica - Forçar a criança a comer, ou seja, não reconhecer os sinais de saciedade; introduzir alimentos inadequados para a faixa etária, como o leite de vaca, que é contraindicado por ser nutricionalmente inadequado, e itens industrializados ricos em açúcar e gorduras; errar no tempo correto da introdução alimentar: precoce, antes dos quatro meses, ou tardia, após os sete meses.


OIN – Erros nesse início podem trazer consequências futuras? Quais?

Monica - A introdução de alimentos inadequados neste início pode trazer comprometimentos para a saúde em curto prazo, como deficiência de nutrientes (ferro, zinco, vitamina A), com repercussões em longo prazo no crescimento e desenvolvimento. Forçar a criança a comer é não reconhecer que ela está saciada, satisfeita, e, quando isso ocorre, pode levar a algum grau de dificuldade alimentar, até um distúrbio alimentar. A alimentação está associada a prazer.

 

OIN – Nessa fase já podem ser oferecidos alimentos integrais? Quais?

Monica - Sim. Alimentos integrais como macarrão e arroz podem ser oferecidos desde o início. Mas atenção: por terem maior quantidade de fibras podem induzir à saciedade precoce, diminuindo a quantidade a ser consumida.


OIN – De forma geral, quais alimentos devem ser evitados nessa fase?

Monica - Evitar o leite de vaca: na impossibilidade de amamentar, o bebê deve receber fórmula infantil até um ano. Evitar alimentos industrializados, como biscoitos e pães doces; salgados de pacote; embutidos como salsichas, linguiças; bebidas açucaradas, como sucos em pó, de caixa, refrigerante; doces e guloseimas (chocolates e outros doces).


OIN – Qual o seu conselho para os pais de primeira viagem que estão iniciando a alimentação complementar?

Monica - O momento da introdução da alimentação complementar deve ser orientado pelo pediatra e iniciado com tranquilidade, aos poucos, sendo prazeroso para ambas as partes, e sempre respeitando a saciedade do bebê. É preciso lembrar que tudo é novidade neste momento para o bebê: a colher, a textura, os sabores... Antes ele conhecia o seio e leite materno, ou simplesmente o leite. É neste período, ou até os dois anos, que os hábitos alimentares vão sendo formados.