Tania Zagury (*)

Seus filhos são felizes? Perguntou-me a senhora ao meu lado, no restaurante. O que, na verdade, ela queria saber era se, agindo de acordo com o que defendo em meus livros, seria possível que meus filhos fossem felizes. É que circula a crença de que tendo limites é impossível alguém ser feliz, razão porque os pais hoje vivem se fazendo essa pergunta. É só ver uma carinha triste para pensar: "onde foi que errei?" Refletir sobre nossos atos é ótimo: faz progredir, muda atitudes. Mas se não se pensa sobre bases concretas e tal reflexão só faz você se sentir culpado, é algo que se deve evitar. A pergunta correta, no caso da senhora do restaurante, seria: Os pais são responsáveis pela felicidade dos filhos? Quem pensa que sim, quase com certeza se sente com medo de lhes negar qualquer coisa, da mesma forma que não tem segurança para estabelecer regras para a filharada. Esse medo também explica, em parte, porque as crianças ganham doces em vez de frutas, e brinquedos em vez de um simples abraço quando traz boas notas da escola, por exemplo. Vendo a criança sorrir, o pai pensa: eu a fiz feliz! Se, pelo contrário, ralha ou impede um comportamento inadequado, a carinha da criança o faz retroceder, porque sente culpa. Mas será que ser feliz é passar rindo todos os minutos da vida? E será que é realmente tarefa dos pais prover sorrisos gerados pela ingestão de uma caixa cheinha de bombons - em vez do alimento saudável?  Não! A tarefa dos pais não é fazer os filhos felizes; é criar condições para se tornem pessoas felizes mais adiante. Ter uma infância tranquila, com amor, educação e segurança contribui muito para que esse objetivo se concretize. Mas garante? E por toda a vida?

Ser feliz depende não somente das variáveis objetivas que os pais têm o dever de prover, mas também pela forma que cada um tem de interpretar fatos e atitudes dos que nos cercam. É uma característica inata – o equipamento cognitivo. Graças a ele, mesmo em um ambiente favorável e cercada de carinho, uma pessoa pode se sentir infeliz e outras felizes em situações desfavoráveis. Não estou isentando os pais de suas responsabilidades, claro! Os que desrespeitam os filhos, impedem-nos de desenvolver o equilíbrio emocional básico, e podem obstruir a capacidade de ser feliz. Mas a recíproca não é verdadeira, porque ser feliz tem a ver também com a situação social; com as oportunidades que o meio oferece; com a cultura local e até mesmo com eventos fortuitos que podem mudar a vida (epidemias, guerras). Cada pessoa, dentro desse conjunto de variáveis e, de acordo com seu modo de perceber o mundo, reage de modo particular ao que acontece em sua vida. Por isso filhos são tão diferentes, ainda que criados na mesma família. Resumindo: pais são os provedores de grande parte das condições que se tornarão a base sobre a qual cada filho escolherá o seu caminho. E essa escolha poderá resultar em felicidade - ou não. Quem define se será feliz ou não, é o próprio indivíduo. Portanto, não tema negar o que sabe que é prejudicial a seu filho. Ele quer comer batata frita todos os dias? Diga não, sem medo! Ele não será infeliz por isso – e terá artérias saudáveis!

(*) Filósofa Mestre em Educação, Professora UFRJ, escritora com 25 livros publicados entre os quais "Limites sem Trauma."