Tania Zagury (*)

Você sabia que, desde pequena, a criança incorpora ideias sobre si, que influenciarão suas atitudes mais adiante? É o processo de formação da autoestima – que a acompanhará por toda vida. Explicando de forma bem simples, autoestima é a forma pela qual a pessoa se percebe. Quem se vê positivamente tem autoestima positiva; em caso contrário, tem autoestima negativa. É um conceito complexo, mas fundamental. E embora a família não seja a única a influenciar nesse âmbito, seu papel é essencial e tem relação com a forma com que a criança vivencia o seu dia a dia com os pais. Há quem se preocupe tanto com a autoestima dos filhos, que fica impossibilitado de agir educativamente – tal o medo de que uma simples bronca faça a criança se sentir um caco! Assim como há também pais que simplesmente ignoram o assunto. A opinião que temos sobre nós próprios vai se formando ao longo dos anos, pela conjugação de diversas variáveis, algumas inclusive, inatas. Sabe-se hoje que quem tem autoestima positiva costuma ter mais chances de sucesso profissional, afetivo e social – vale a pena, portanto, trabalhar para fortalecê-la. Mas vale lembrar aos pais que há uma insuspeita relação também entre autoestima e obesidade. Nos primeiros anos de vida, os pais são a maior influência sobre a criança; sentir-se amada e aprovada por eles é essencial para o seu equilíbrio emocional. Funciona mais ou menos assim: quando o pai sorri porque seu bebê balbuciou "papa", a criança se sente aprovada (= amada); sentir-se amada faz aumentar a produção de endorfina, um neurotransmissor conhecido como hormônio do bem-estar; e o que nos traz bem-estar tende a ser repetido. É como se o bebê pensasse: "papai me ama quando falo "papa"; então vou falar "papa" de novo, para ele me amar sempre"! Fofo, não?Quando se senta pela primeira vez e a mamãe o beija, o bebê se sente amado, secreta endorfina, sente-se bem e é bom; então repete! Sim, sentir-se amado é o que o ser humano mais precisa! E se a fonte maior de amor são os pais, cada ato paterno repercute na afetividade. Um senhor poder – que deve ser bem aproveitado: ao aplaudir atitudes socialmente corretas, espera-se que a criança as repitam; da mesma forma que, ao dizer um palavrão, se o pai se mostra "bravo", a tendência é não usar mais, porque quer aprovação (amor) e não reprovação (desamor). A relação entre obesidade infantil e autoestima entra aí. Estudos demonstram que crianças com peso acima do ideal do nascimento até dois anos tendem a conservar o padrão. Quem aprova veementemente a criança que mama tudo, ou não deixa migalha no prato, contribui para firmar a ideia "comer tudo = ser amado". Da mesma forma que, se deixa umas colherinhas e insistem "coma mais duas para a mamãe ficar feliz", está firmando a ideia de que comer tudo é sinônimo de amor. Mesmo não sendo a ação paternal o único fator interveniente na questão, vale considerar o quanto se está ou não incentivando a que comer sirva para compensar desamor, tristeza ou qualquer situação emocional negativa. Portanto, menos exagero e insistência para que seu filhinho coma tudo! E nada de chororô se ele deixar umas colheradas!

(*) Filósofa, mestre em Educação, professora da UFRJ, escritora, autora, entre outros, de "Filhos, manual de instruções."